O hospital do futuro é mais que um lugar moderno
Health Innovation por Einstein

O hospital do futuro é mais que um lugar moderno

Big data expandirá o cuidado em saúde para além do ambiente hospitalar, que deverá ser voltado exclusivamente à alta complexidade. Sistema terá gestão aprimorada, redução de custos e diminuição de riscos aos pacientes.

Imagine que, com um tablet nas mãos, um paciente internado em um quarto de hospital possa controlar a luz do ambiente, ligar a televisão, abrir a janela e alterar a inclinação da cama conforme a sua preferência. Através desse mesmo dispositivo eletrônico, ele também conseguirá fazer quantos chamados à equipe de enfermagem forem necessários para a garantia do seu bem-estar e, caso seja preciso, ainda poderá receber atendimento por telemedicina.

Essa proposta de quarto automatizado, mais moderna e mais prática, proporciona maior conforto, comodidade e segurança durante um tratamento hospitalar, evidentemente. Mas, se na década de 1960 a descrição desse lugar seria considerada futurista, digna de um episódio de “Os Jetsons”, atualmente o cenário faz parte do dia a dia de instituições de referência no Brasil.

Em 2022, o que se projeta como o hospital do futuro, sem dúvida, tem como parte essas facilitações. No entanto, o conceito vai muito além da inovação aplicada a espaços físicos. A conexão dos aparatos tecnológicos ao prontuário eletrônico do paciente é o que se considera um dos passaportes para essa nova era, apoiada no big data para a otimização da gestão e do cuidado em saúde.

Big data analytics

Trabalhando de forma analítica dados relacionados ao número de chamados feitos por pacientes no quarto automatizado, registros sobre quadros clínicos e tipos de internação, por exemplo, será possível planejar uma alocação mais assertiva dos profissionais de saúde em expediente no hospital ou identificar se determinado perfil de paciente necessita de maior ou menor assistência. Um ganho enorme para a gestão.

Em outra situação, a partir de dados extraídos em tempo real de monitores de telemetria e de câmeras, que abastecem o prontuário eletrônico, é possível prever desdobramentos clínicos. Algoritmos de inteligência artificial (IA), scores e triggers estão sendo usados para orientar os responsáveis pelo cuidado na linha de frente sobre uma eventual piora no estado de saúde de uma pessoa internada, aumentando a probabilidade de êxito no atendimento.

No Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), onde essas aplicabilidades integram o momento presente, a Central de Monitoramento Assistencial (CMOA) é a unidade responsável por gerir informações, emitir alertas e fazer contato direto com os profissionais de saúde para auxiliar na conduta assistencial.

Na avaliação da Diretora de Operações e de Enfermagem no HIAE e responsável pela CMOA, Claudia Laselva, o uso crescente de novas tecnologias aumentará gradativamente a agilidade nos sistemas de saúde, além de contribuir para o reforço da segurança e para uma melhor experiência do usuário atendido.

Internações domiciliares

Com uma gestão mais inteligente, o hospital do futuro deverá, finalmente, ser voltado exclusivamente à alta complexidade. Ao encontro dessa ideia, a ampliação da telemedicina e do uso de medical devices de monitoramento permitirá o crescimento do número de internações em domicílio em casos menos complexos. Essa combinação terá como resultado a redução de custos e a diminuição do risco de complicações no ambiente hospitalar.

O quarto automatizado já está em funcionamento em duas alas do HIAE, mas espera-se que ele seja expandido e ultrapasse a atual delimitação física da rede. A interface com o prontuário eletrônico, essencial para esse percurso, está em fase final de desenvolvimento. Depois disso, o próximo passo da instituição será construir uma proposta para que uma internação em casa seja acompanhada pela CMOA, reproduzindo o que está sendo feito dentro do hospital.

“Teremos diferentes níveis de monitoramento, mas eu quero poder mensurar os sinais vitais do paciente em casa de forma contínua. Esses dados serão acompanhandos pela CMOA e os parâmetros definidos por cada paciente, conforme a doença, a idade, e outros parâmetros importantes. Será possível saber se o paciente está ou não bem controlado. É impossível fazer uma internação como essa se não garantirmos o monitoramento. O paciente também poderá interagir para que se sinta seguro, mesmo em sua casa. É o que vislumbramos para um futuro próximo”, antecipou Claudia Laselva.

Trajetória do paciente

A coleta e a interoperabilidade de dados serão fundamentais para o aprimoramento da dinâmica do sistema de saúde. Com a trajetória do paciente registrada e acessível, o que se tem em mente é que será cada vez mais difícil surpreender o hospital do futuro.

“Não imaginamos mais um paciente chegando a um hospital como um desconhecido. Toda a história dele já estará disponível em nosso sistema. Imaginamos que, em um futuro próximo, nenhum paciente chegará ao pronto-socorro sem que tenha feito uma consulta prévia por telemedicina, sem ter um primeiro direcionamento, exceto nas situações absolutamente emergenciais”, disse a chefe da CMOA.

Na visão de Laselva, porém, ainda que avancem substancialmente, as novas tecnologias não serão capazes de substituir a avaliação humana, sobretudo devido às particularidades de cada paciente. As inovações continuarão sendo um suporte para aprimorar a atuação dos profissionais de saúde.

“Eu não posso afirmar que vamos predizer 100% das vezes. Sabemos que a medicina não é exata, que as pessoas têm características muito particulares. É como a questão dos protocolos. Eles se aplicam à grande maioria dos pacientes, mas é sempre importante o julgamento clínico do profissional. Tudo o que estamos construindo na central de monitoramento é para alertar, dar apoio, suporte à decisão. A análise final é do profissional de saúde. Há uma série de outros conhecimentos para os quais eu não consigo enxergar, neste momento, com o nível de inteligência que temos ou mesmo que ainda possamos ter, algo que substitua integralmente, que vá predizer 100% dos eventos. Mas as perspectivas de contribuir para proporcionarmos o melhor e mais seguro atendimento aos nossos pacientes são consideráveis”.

Alfabetização em saúde

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a atenção primária à saúde tem capacidade de atender de 80% a 90% das necessidades de uma pessoa ao longo da vida. Mesmo assim, a imagem de prontos-socorros lotados, seja no setor público ou privado, tem sido uma das marcas do atendimento em saúde no Brasil nos últimos anos. A mudança desse padrão é um grande desafio do sistema que se espera solucionar para o futuro.

É consenso entre especialistas da área que o hospital precisa ser um ambiente exclusivo para casos de emergência e alta complexidade. Esse caminho, porém, não depende apenas de profissionais de saúde e de gestores, mas passa de forma mais ampla pela chamada “health literacy”, o que seria como uma espécie de alfabetização em saúde. O foco do hospital do futuro será no autocuidado, na prevenção de doenças e no indivíduo responsável pela sua própria saúde, sendo o sistema um suporte nessa trajetória.

Recentemente, essa tão esperada alteração de comportamento teve uma aceleração significativa. Durante o ano de 2020, o primeiro da pandemia da Covid-19 no país, os atendimentos por telemedicina tiveram um boom, sobretudo na saúde suplementar, com alto nível de satisfação entre os beneficiários de planos de saúde devido à comodidade proporcionada pela prática. A mudança exigiu a publicação de uma legislação provisória e alterações regulatórias mínimas na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), mas confirmou a existência de uma importante ferramenta para a diminuição da busca por atendimentos presenciais de urgência.

Dados coletados pelo Einstein mostram que, entre os dias 1º de março de 2020 e 31 de dezembro de 2021, o hospital fez 451.375 atendimentos por telemedicina, com tempo médio de espera de pouco mais de três minutos. Desse total, houve mais de 85% de resolutividade de casos, ou seja, a grande maioria dos pacientes não precisou ser encaminhada ao pronto-socorro após a consulta remota.

Para a gerente médica de Experiência do Cliente de Medicina Diagnóstica e Ambulatorial do HIAE, Flávia Camargo, essa transição para o universo digital vem sendo impulsionada pelas próprias necessidades dos pacientes, e a pandemia intensificou o que acontecia em ritmo mais lento nos últimos cinco anos. Na visão da médica, esse se tornou um dos exemplos mais emblemáticos na área da saúde.

“A chave para essa mudança é ouvir e entender o que as pessoas esperam e precisam. E obviamente a gente vai criar isso dentro de um frame relacionado à qualidade e à segurança”, afirmou.

Healthcare do futuro

O hospital do futuro não é apenas um lugar moderno, mas um conceito abrangente de healthcare que demanda uma série de transformações em diversas frentes de atuação. Com o uso de suportes tecnológicos e big data, esse hospital promoverá a descentralização da assistência à saúde, mas com a conectividade necessária para um cuidado contínuo e efetivo, centrado no indivíduo.

“É este o hospital que imaginamos: conectado, destinado à altíssima complexidade, com o uso cada vez mais constante de tecnologias que irão acima de tudo, propiciar a agilidade que o sistema precisa. Com a conectividade, dependendo da maneira como nós desenharmos, construirmos e extrairmos os dados do prontuário eletrônico, poderemos contribuir muito para a segurança do paciente, para uma melhor experiência nos serviços de saúde. É o futuro que projetamos construir”, avaliou Laselva.

Para isso, de maneira geral, a população precisa ser conscientizada sobre a responsabilidade sobre a sua própria saúde ao longo da vida, passando a integrar uma cultura de autocuidado e de prevenção, ligada a mudanças de hábitos. Os profissionais que atuam no setor, por sua vez, devem ser capacitados para lidar com as novas tecnologias em ascensão e usá-las ao seu favor. E aqueles que são da área de tecnologia podem se aproximar da saúde para compreender suas particularidades, criando soluções com maior escalabilidade.

Além de ultrapassar barreiras culturais e tecnológicas, será preciso evoluir em relação a práticas antigas adotadas dentro do próprio no setor de saúde. A busca por modelos de remuneração mais aquedados, que valorizem os resultados obtidos nos tratamentos, é uma das demandas para a o aumento da qualidade do atendimento em saúde.

“Nós, como prestadores, precisamos atuar de forma cada vez mais integrada para oferecer um atendimento fluido e uniforme, com a melhor experiência possível para que os pacientes consigam utilizar os serviços de saúde do futuro de maneira autônoma. Isso beneficiará o sistema como um todo, tornando-o mais consciente, mais sustentável e conectado”, disse Flávia Camargo.

A expansão do uso e do compartilhamento de dados frente à necessidade de garantia da segurança no tratamento de informações pessoais, nesses primeiros anos de aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), é outro tópico presente nessa gama de desafios. A própria telemedicina, tão usada durante a pandemia da Covid-19, ainda tem regulamentação provisória em vigor, com regras definitivas em etapa de discussão pelo Congresso Nacional. Por fim, o hospital do futuro não pode ser apenas privado. Precisamos pensar em soluções para que ele seja acessível à maior parte da população, cuja assistência depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS).


Este artigo foi produzido por Manoela Albuquerque, Repórter e Editora de Saúde na MIT Technology Review Brasil.