HIV pode infectar 1.400 bebês por dia devido às interrupções na ajuda dos EUA
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HIV pode infectar 1.400 bebês por dia devido às interrupções na ajuda dos EUA

Dados de pesquisas indicam que mais de um terço das organizações que dependiam de financiamento dos EUA para serviços relacionados ao HIV já haviam fechado em fevereiro.

Cerca de 1.400 bebês estão sendo infectados pelo HIV todos os dias como resultado dos cortes da nova administração dos EUA no financiamento a organizações de combate à AIDS, segundo novas projeções.

Em uma ordem executiva emitida em 20 de janeiro, o presidente Donald Trump suspendeu novos financiamentos de ajuda externa para programas globais de saúde, e quatro dias depois, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, emitiu uma ordem de paralisação das assistências externas então existentes.

Pesquisas indicam que essas mudanças forçaram mais de um terço das organizações globais que oferecem serviços essenciais de combate ao HIV a fechar as portas dentro de poucos dias após os anúncios.

Centenas de milhares de pessoas estão perdendo o acesso a tratamentos contra o HIV como resultado. Mulheres e meninas também estão deixando de receber exames para detecção de câncer do colo do útero e serviços relacionados à violência de gênero.
Uma isenção emitida por Rubio posteriormente, na tentativa de restaurar serviços que salvam vidas, teve impacto mínimo.

“Estamos em uma crise”, afirmou Jennifer Sherwood, diretora de pesquisa e políticas públicas da amfAR, a Fundação para a Pesquisa da AIDS, durante um evento de compartilhamento de dados em 17 de março na Universidade Columbia, em Nova York. “Mesmo os fundos que já haviam sido aprovados, que já estavam em campo, nas contas bancárias das pessoas, foram congelados.”

Rubio aprovou uma isenção para assistência humanitária “que salva vidas” em 28 de janeiro. “Essa retomada é de natureza temporária e, com exceções limitadas conforme necessário para continuar programas de assistência humanitária que salvam vidas, nenhum novo contrato deverá ser firmado”, afirmou ele em comunicado na época.

O Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da AIDS (PEPFAR), que investe milhões de dólares todos os anos na resposta global à AIDS, também recebeu uma isenção em 1º de fevereiro para continuar trabalhos “que salvam vidas”.

Apesar dessa isenção, houve relatos devastadores sobre o impacto nos programas de saúde em muitos países de baixa renda que dependiam do financiamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que supervisiona o PEPFAR.

Para obter uma noção mais precisa do impacto geral, a amfAR realizou duas pesquisas com mais de 150 organizações que dependem do financiamento do PEPFAR em mais de 26 países.

“Identificamos interrupções realmente severas nos serviços de HIV”, disse Sherwood, que apresentou os resultados na Columbia. “Cerca de 90% dos participantes disseram que [os cortes] limitaram severamente sua capacidade de oferecer serviços de HIV.”
Especificamente, 94% dos serviços de acompanhamento — projetados para monitorar o progresso dos pacientes — foram cancelados ou interrompidos.
Houve interrupções igualmente drásticas em serviços de testagem, tratamento e prevenção do HIV, e 92% dos serviços voltados à violência de gênero foram cancelados ou interrompidos.

Os cortes mergulharam as organizações em uma “crise financeira profunda”, afirmou Sherwood. Quase dois terços dos respondentes disseram que os funcionários baseados nas comunidades foram demitidos antes do fim de janeiro. Quando a equipe perguntou às organizações quanto tempo conseguiriam permanecer abertas sem o financiamento dos EUA, 36% disseram que já haviam fechado. “Apenas 14% disseram que conseguiriam ficar abertas por mais de um mês”, afirmou Sherwood. “E… esses dados foram coletados há mais de um mês.” As organizações relataram que dezenas de milhares das pessoas que atendem perderiam o tratamento contra o HIV em até um mês. Para algumas organizações, esse número ultrapassava 100.000, disse Sherwood.

Parte do problema é que a ordem de paralisação chegou em um momento em que essas organizações já estavam enfrentando “escassez de insumos”, destaca Sherwood.
Normalmente, os centros costumam fornecer a uma pessoa um suprimento de seis meses de medicamentos antirretrovirais. Antes da ordem de paralisação, muitas organizações estavam fornecendo apenas suprimentos para um mês. “Quase todos os seus pacientes devem voltar para buscar [mais] medicamentos durante esse congelamento de 90 dias”, afirma. “É possível perceber claramente o pânico que isso causou.”

A isenção para tratamentos que “salvam vidas” não fez muito para resolver essa situação.
Apenas 5% das organizações receberam fundos por meio da isenção, enquanto a grande maioria foi informada de que não se qualificava ou não foi notificada de que poderia retomar os serviços. “Embora a isenção possa ser uma via importante para reiniciar alguns serviços, ela não pode, por si só, salvar o programa de HIV dos EUA”, afirma Sherwood. “Ela é muito limitada em escopo e não foi amplamente comunicada aos que atuam em campo.”

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A amfAR não é a única organização acompanhando o impacto dos cortes no financiamento dos EUA. No mesmo evento, Sara Casey, professora assistente de saúde populacional e familiar na Universidade Columbia, apresentou os resultados de uma pesquisa com 101 pessoas que trabalham em organizações que dependem da ajuda dos EUA. Elas relataram interrupções em serviços de respostas humanitárias, violência de gênero, saúde mental, doenças infecciosas, medicamentos e vacinas essenciais, entre outros. “Muitos desses deveriam ter sido elegíveis para as isenções de ‘salvamento de vidas’”, disse Casey.

Casey e seus colegas também estão entrevistando pessoas na Colômbia, no Quênia e no Nepal. Nesses países, mulheres em idade reprodutiva, recém-nascidos e crianças, pessoas vivendo com HIV, membros da comunidade LGBTQI+ e migrantes estão entre os mais afetados pelos cortes, disse ela, e os profissionais de saúde — em sua maioria mulheres — estão perdendo seus meios de subsistência.

“Haverá impactos realmente desproporcionais sobre os mais vulneráveis do mundo”, afirmou Sherwood. As mulheres representam 67% da força de trabalho na área da saúde, segundo a Organização Mundial da Saúde. Também representam 63% dos pacientes do PEPFAR.
O PEPFAR tem apoiado a igualdade de gênero e os serviços voltados à violência de gênero.
“Não sabemos se outros países ou doadores… podem ou vão assumir esse tipo de programa, especialmente diante de prioridades concorrentes, como manter as pessoas em tratamento e vivas”, explica Sherwood.

Sherwood e seus colegas da amfAR também realizaram modelagens para determinar o impacto potencial dos cortes ao PEPFAR sobre mulheres e meninas, utilizando dados do ano passado para criar suas estimativas. “A cada dia em que a ordem de paralisação continua em vigor, estimamos que 1.400 novas infecções por HIV ocorram entre bebês”, disse ela.
E todos os dias, mais de 7.000 mulheres deixam de realizar exames de câncer do colo do útero.

Os cortes no financiamento também tiveram um efeito dramático sobre os serviços de saúde mental, segundo Farah Arabe, membro do conselho consultivo da Global Mental Health Action Network. Arabe apresentou os resultados preliminares de uma pesquisa em andamento com organizações de saúde mental de 29 países que recebem ajuda dos EUA. “Infelizmente, o cenário é muito sombrio”, disse ela. “Apenas 5% dos indivíduos que estavam recebendo serviços em 2024 conseguirão continuar recebendo-os em 2025.”

O mesmo vale para crianças e adolescentes. “Este é um quadro particularmente triste, porque as crianças… estão passando por um estágio de desenvolvimento cerebral”, disse ela.
“Os impactos… nesta fase inicial da vida têm consequências para toda a vida, afetando o desempenho acadêmico, a produtividade econômica, a saúde mental, a saúde física… e até mesmo a capacidade de criar a próxima geração.”

Por enquanto, organizações sem fins lucrativos, de ajuda humanitária e de pesquisa estão correndo para tentar entender — e, possivelmente, limitar — o impacto dos cortes.
Algumas esperam localizar novas fontes de financiamento, independentes dos EUA.

“Estou profundamente preocupado com o risco de retrocesso nos avanços na erradicação de doenças, na redução da pobreza e na igualdade de gênero”, declarou Thoai Ngo, da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade Columbia, que presidiu o evento. “Sem uma ação urgente, mortes evitáveis vão aumentar, mais pessoas cairão na pobreza e, como sempre, mulheres e meninas carregarão o fardo mais pesado.”

Em 10 de março, Rubio anunciou os resultados da revisão feita por seu departamento sobre a USAID. “Após uma revisão de seis semanas, estamos oficialmente cancelando 83% dos programas da USAID”, compartilhou na rede social X.

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