O Google está tentando alcançar a OpenAI nas buscas?
Inteligência artificial

O Google está tentando alcançar a OpenAI nas buscas?

O Google dominou as buscas por décadas. Mas será que seu domínio de mercado está impedindo a empresa de inovar na era da IA?

Tenho refletido sobre algo que Will Heaven, nosso editor sênior de IA, destacou não faz muito tempo: que todos os grandes nomes da IA parecem estar se movendo nas mesmas direções e convergindo para as mesmas coisas. Agentes. Pesquisas profundas. Versões leves dos modelos. E assim por diante.

Algumas dessas escolhas fazem sentido, já que eles estão observando as mesmas coisas e tentando resolver os mesmos problemas. Mas, quando conversei com Will sobre isso, ele disse: “Parece quase uma falta de imaginação, certo?” É. Parece mesmo.

O que me fez pensar nisso novamente foi um par de anúncios do Google nas últimas semanas, ambos relacionados às maneiras como a busca está convergindo com os modelos de linguagem de IA — algo sobre o qual venho reportando bastante ao longo do último ano.
O Google mirou diretamente nessa interseção ao adicionar novos recursos de IA do Gemini à busca — e ao adicionar recursos de busca ao Gemini. Ao usar ambos, o que mais me chamou a atenção, mais do que o quão bem funcionam, é que eles parecem simplesmente tentar alcançar o ChatGPT da OpenAI. E o fato de aparecerem com atraso, em março do ano de 2025, não parece um bom sinal para o Google.

Veja o AI Mode, anunciado em 5 de março. É interessante. Funciona bem. Mas é basicamente uma repetição do que a OpenAI já vinha fazendo. (Além disso, não se confunda com o nome. O Google já tinha algo chamado AI Overviews na busca, mas o AI Mode é diferente e mais profundo.) Como a empresa explicou em um post no blog: “Este novo modo de Busca expande o que os AI Overviews podem fazer, com raciocínio mais avançado, pensamento e capacidades multimodais, para que você possa receber ajuda mesmo com suas perguntas mais difíceis.”

Em vez de uma visão geral breve com links, a IA vai se aprofundar e oferecer respostas mais robustas. Você também pode fazer perguntas de acompanhamento, algo que os AI Overviews não permitem. Parece uma evolução bastante natural — tanto que é curioso porque isso ainda não está amplamente disponível. Por enquanto, está limitado a pessoas com contas pagas, e mesmo assim apenas por meio do ambiente experimental do Search Labs.
Mas, mais importante: por que isso não estava disponível, digamos, no verão passado?

A segunda mudança é que o Google adicionou o histórico de buscas ao seu chatbot Gemini, e promete ainda mais personalização em breve. Sobre isso, o Google diz: “A personalização permite que o Gemini se conecte com seus aplicativos e serviços do Google, começando com a Busca, para fornecer respostas realmente esclarecedoras e que atendam diretamente às suas necessidades.”

Muito do que esses novos recursos estão fazendo — especialmente a capacidade do AI Mode de permitir perguntas de acompanhamento e ir fundo — parece estar atingindo a mesma gama de funcionalidades que o ChatGPT já oferece há meses. Também tem sido comparado ao Perplexity, outra startup de mecanismos de busca baseados em IA generativa.

Nenhuma das duas funcionalidades parece algo novo ou inédito. Nenhuma parece inovadora. O ChatGPT já vem há tempos construindo históricos de usuários e utilizando essas informações para entregar resultados. Embora o Gemini também pudesse lembrar coisas sobre você, é um pouco chocante para mim que o Google tenha levado tanto tempo para incorporar sinais vindos de seus outros produtos. Obviamente, há preocupações com privacidade a serem consideradas, mas estamos falando de um produto que exige ativação por parte do usuário.

Outra questão é que, pelo menos pelo que observei até agora, o ChatGPT simplesmente é melhor nesse tipo de funcionalidade. Aqui vai um pequeno exemplo. Tentei perguntar a ambos: “O que você sabe sobre mim?” O ChatGPT respondeu com um perfil realmente perspicaz, até mesmo reflexivo, com base nas minhas interações com ele. E não se trata apenas das coisas que eu explicitamente pedi para ele lembrar sobre mim. Muito vem do contexto de diversos comandos que enviei. Ele descobriu que tipo de música gosto. Sabe pequenos detalhes sobre meu gosto por filmes. (“Você geralmente não gosta de filmes slasher.”) Alguns trechos são estranhamente encantadores. Por exemplo: “Você construiu um pequeno galpão para lixeiras com um telhado de madeira articulado e precisava de uma solução para mantê-lo aberto.”

O Google, apesar de ter literalmente décadas dos meus e-mails, histórico de buscas e navegação, uma cópia de todas as fotos digitais que já tirei, e um entendimento assustadoramente profundo sobre quem eu realmente sou — provavelmente mais do que eu mesmo tenho —, na maioria das vezes devolveu um tipo de perfil que agradaria a um anunciante, e não a uma pessoa esperando por resultados úteis e personalizados.
(“Você gosta de comédia, música, podcasts e tem interesse tanto em mídia atual quanto clássica.”)

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Você diz que gosto de música? Notável!

Também me lembro de algo que um executivo da OpenAI me disse no fim do ano passado, enquanto a empresa se preparava para lançar sua busca. Ela tem mais liberdade para inovar justamente porque não carrega um negócio legado massivo como o do Google. Sim, está queimando dinheiro enquanto o Google está imprimindo dinheiro. Mas a OpenAI tem o luxo de poder experimentar (pelo menos até o capital acabar) sem se preocupar em matar uma máquina de fazer dinheiro como o Google tem com sua busca tradicional.

Claro, é evidente que o Google e sua empresa-mãe, a Alphabet, conseguem inovar em várias áreas — veja, por exemplo, o anúncio do Gemini Robotics da Google DeepMind feito na primeira quinzena de março. Ou então faça um passeio em um Waymo (empresa de carros autônomos)! Mas será que consegue fazer isso ao redor de seus produtos e negócios principais? Não é a única gigante da tecnologia tradicional com esse problema. A estratégia de IA da Microsoft até agora dependeu em grande parte da parceria com a OpenAI. E a Apple, por sua vez, parece completamente perdida, como escancarado em uma crítica impiedosa escrita pelo analista veterano da Apple, John Gruber.

O Google tem bilhões de usuários e pilhas de dinheiro. Pode alavancar sua base existente de formas que OpenAI, Anthropic (da qual o Google também detém uma boa fatia) ou Perplexity simplesmente não são capazes. Mas também estou bastante convencido de que, a menos que consiga liderar o mercado aqui — em vez de apenas seguir os outros —, isso aponta para dias difíceis pela frente. Mas, ei, o Projeto Astra está chegando. Vamos ver o que acontece.

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