A verdade sob ataque: o colapso da confiança digital e a era da verificação
Negócios e economia

A verdade sob ataque: o colapso da confiança digital e a era da verificação

Como o avanço da Inteligência Artificial e das redes clandestinas cria uma nova economia digital, e o que as empresas precisam fazer para sobreviver nela

Um vídeo real? Uma imagem falsa? Um boletim médico, um boleto ou uma credencial. Hoje, praticamente tudo pode ser forjado com precisão assustadora. Com o avanço de ferramentas de geração de imagens, textos e vozes por Inteligência Artificial, entramos na era do colapso da confiança digital.

Segundo o relatório “State of Deepfakes 2023”, da empresa Sensity AI, o número de vídeos maliciosos na internet dobrou a cada seis meses, desde 2019. A fraude de identidade emerge como o crime financeiro de crescimento mais rápido nos EUA, drenando anualmente US$ 6 bilhões dos cofres dos bancos (Fonte: “Synthetic identity fraud”, KPMG).

A receita dos criminosos combina dados pessoais vazados, usados para criar IDs “híbridos”, com ferramentas automatizadas calcadas em softwares de baixo custo, que testam milhares de credenciais roubadas em minutos, e sistemas com IA. Com esse arranjo de soluções que se complementam em um esquema de crime sofisticado, os fraudadores já conseguem burlar, por exemplo, a autenticação por voz (“Battling next-gen financial fraud”, MIT Technology Review).

No Brasil, essa realidade é amplificada por uma cultura digital ainda em amadurecimento com relação à segurança e à verificação. E mais: ao contrário do senso comum, que frequentemente associa a vulnerabilidade aos golpes digitais à idade avançada, as pesquisas demonstram que o perfil das vítimas é outro.

Um amplo levantamento realizado pelo DataSenado, em 2024, com quase 22 mil pessoas ouvidas, revelou que os jovens, entre 16 e 29 anos, são os mais afetados, representando 27% do total de vítimas. Em contrapartida, os idosos com mais de 60 anos, comumente vistos como os mais expostos, por terem migrado para o ambiente digital somente na fase adulta, correspondem a 16% dos casos.

Em um cenário repleto de boletos falsos, perfis clonados e até imagens de acidentes geradas por IA, indistinguíveis do real, o processo de atestar a veracidade das coisas se tornou um verdadeiro campo de batalha. E as empresas estão no centro dele.

Fraude x Golpe: como a manipulação técnica e a engenharia social se combinam

Embora frequentemente usados como sinônimos, fraude e golpe envolvem dinâmicas distintas e, por isso, exigem respostas diferentes.

“Quando um criminoso descobre sua senha ou falsifica seu documento, temos exemplos de fraudes”, diz Marcelo Costa de Sousa, Vice-Presidente de Produto da Caf, empresa global de verificação inteligente, que protege negócios e pessoas com Inteligência Artificial e soluções antifraude.

“O golpe vai na direção da engenharia social”, complementa Sousa. “Nada deixa de funcionar como deveria para o usuário, mas o golpista cria uma narrativa que convence a vítima a fornecer algum dado ou credencial. Dessa forma, o ator do golpe entra ‘pela porta da frente’ do sistema de um banco ou de um plano de saúde, por exemplo.”

O relatório de cibersegurança da IBM, “X-Force Threat Intelligence Index 2024”, informa que mais de 70% das violações envolvem erro humano, o que inclui golpes por phishing (tentar enganar as pessoas para obter informações confidenciais como senhas, por exemplo), whaling (um tipo de phishing, mas direcionado a executivos de alto escalão de uma empresa) e ataques via aplicativos de mensagens.

O grande perigo enfrentado atualmente é a integração entre ambos: golpistas usam engenharia social para obter dados e, em seguida, aplicam fraudes com ferramentas automatizadas. E esse processo já está sendo aplicado em escala, com kits e manuais vendidos online, encontrados na internet aberta.

A profissionalização do crime digital: a fraude como um serviço e o novo mercado paralelo da autenticidade

Chamado de Fraud as a Service (FaaS – “Fraude como um serviço”, em tradução livre para o português), esse modelo clandestino de negócio transforma fraudes digitais em produtos e serviços prontos para uso. Com essa evolução no crime tecnológico, não é mais necessário ser um hacker experiente para cometer delitos.

Por meio de grupos, apps e fóruns especializados, qualquer pessoa pode comprar kits de identidade falsa (com CPF, RG, CNH, selfies manipuladas), scripts de fraude para acesso a bancos e fintechs, bots para emissão de atestados médicos ou CRM falsificados, e até mesmo plataformas de atendimento com deepfake (técnica criminosa para criar vídeos, áudios e/ou imagens falsas, mas hiper-realistas) para videoconferências fraudulentas.

A empresa Resecurity, que monitora ameaças globais, estima que o mercado global de FaaS já movimenta mais de US$ 2 bilhões por ano (2023). No Brasil, a venda de atestados e documentos médicos falsos no Telegram cresceu 20 vezes desde 2018. É o que mostram dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) citados no documentário “Fraudes digitais: a nova economia do engano”, produzido pela Prosa Press, com patrocínio da Caf. O doc mergulha no universo das fraudes digitais e mostra como métodos e tecnologias afetam, cada vez mais, o ecossistema digital.

Empresas na linha de frente: como bancos, fintechs e operadoras de saúde estão reagindo

Bancos e fintechs enfrentam milhões de tentativas de fraudes diariamente. Segundo o relatório Threat Intelligence Report 2025, da Fortinet, o Brasil foi alvo de mais de 314 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos apenas no primeiro semestre de 2025, a maior taxa da América Latina.

Já na saúde suplementar, os prejuízos por fraudes médicas e hospitalares chegam a R$ 34 bilhões por ano, de acordo com dados de pesquisa divulgada pelo Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS), realizada pela consultoria Ernst & Young (2022). Segundo informações dadas pela FenaSaúde, presentes no doc “Fraudes digitais: a nova economia do engano”, golpes nesse setor podem incluir falsificação de peso de pacientes oncológicos para inflar a dosagem de medicamentos pagos por miligrama, cobrança de consultas nunca realizadas, com falsificação de assinatura, uso indevido de planos por gêmeos idênticos e até mesmo prestadores que internam pacientes sem necessidade para bater metas de ocupação.

Além de causarem prejuízo direto, essas fraudes minam a confiança no setor e colocam em risco a sustentabilidade de empresas, especialmente as pequenas e médias, que possuem menos recursos para investir em segurança.

Como resposta, as companhias estão adotando estratégias por meio do uso de soluções com Inteligência Artificial e monitoramento constante, como:

Autenticação silenciosa baseada em IA

● Detecção de documentos não estruturados

● Criação de comitês internos de governança digital

● Educação em segurança digital para clientes e colaboradores

A IBM, por exemplo, tem defendido o conceito de “Zero Trust Architecture” (“arquitetura de confiança zero”, em tradução livre). Ao operar com o princípio de “nunca confiar, sempre verificar”, o modelo garante que cada acesso, seja de um usuário, dispositivo ou aplicativo, passe por validação individual.

O tempo em que se buscava uma “bala de prata”, ou seja, aquela solução única destinada a validar identidades, documentos e que prometia resolver tudo, acabou. O combate à FaaS exige organização integrada, por meio do uso inteligente e dinâmico de múltiplas camadas de proteção. Em vez de um fluxo de segurança rígido e previsível, essa orquestração de ferramentas permite adaptar a defesa ao risco de cada transação, contando com tecnologia de ponta e, principalmente, Inteligência Artificial.

IA contra IA: o que vem a seguir na guerra pela veracidade digital

O futuro da segurança digital será travado por Inteligências Artificiais em lados opostos da linha de batalha. De um lado, fraudadores utilizam IA para simular rostos, clonar vozes, gerar vídeos deepfake e automatizar fraudes em escala. De outro, defesas baseadas em IA detectam comportamentos suspeitos, analisam padrões em tempo real e usam biometria comportamental como forma de autenticação contínua.

Com verificações inteligentes, sustentadas por IA, as soluções antifraude podem analisar vastos conjuntos de dados continuamente, usando aprendizado de máquina (machine learning) e grandes modelos de linguagem (Large Language Model – LLM) para detectar padrões sutis e não lineares, além de comportamentos anômalos que provavelmente passariam despercebidos aos olhos humanos.

Essa defesa proativa cria um poderoso sistema imunológico digital que protege o fluxo completo, desde transações financeiras até a integridade das identidades digitais. Dados de suporte de líderes do setor, como a McKinsey & Company, confirmam que a Inteligência Artificial é uma peça fundamental da gestão de riscos moderna. Um estudo da consultoria indica que seu uso pode reduzir as perdas por fraude entre 5% e 10% quase imediatamente após a implementação, ao mesmo tempo em que reduz os falsos positivos em até 60% (“A new approach to fighting fraud while enhancing customer experience”). Essa dupla vitória, de reduzir tanto as perdas quanto o atrito para clientes legítimos, é essencial para vencer a guerra pela veracidade digital.

No entanto, além da tecnologia, será necessária uma mudança cultural profunda, calcada em educação digital de base, campanhas de conscientização e uma visão de que a prevenção à fraude é parte essencial da estratégia de negócios.

A inteligência como ativo e a personalização como escudo

A “fraude como um serviço” é o sintoma de uma transformação digital que não trouxe apenas eficiência, mas também vulnerabilidades em escala industrial. Empresas e instituições públicas precisam se mover rapidamente, não só com firewalls, mas com estratégia, inteligência e jornadas hiperpersonalizadas.

Dessa forma, será possível não apenas dificultar a atuação de fraudadores ao quebrar seus scripts pré-prontos, mas também otimizar a jornada do cliente legítimo e diminuir a fricção como um todo.

Essa visão é determinante para conter ameaças internas e externas que se aproveitam de credenciais obtidas por engenharia social, como mencionado por Marcelo Sousa, ou mesmo compradas em fóruns de FaaS.

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