Firewall emocional, bem-estar e produtividade
Humanos e tecnologia

Firewall emocional, bem-estar e produtividade

Como uma reprogramação de hábitos pode criar uma rotina que favoreça a saúde emocional e diminua a suscetibilidade a ataques de ansiedade e depressão.

Os ataques cibernéticos têm reforçado o investimento em segurança corporativa e preocupando as lideranças das organizações, principalmente na área de Tecnologia da Informação. Numa sociedade cada dia mais digital, na qual pessoas e empresas estão conectadas, os recursos de proteção às informações e dados ganham destaque e senso de urgência à medida que essas ameaças se tornam mais frequentes. E, além dos investimentos em tecnologia, essa realidade tem se traduzido em conscientização, maior governança de dados e novas práticas. Afinal, funcionários e funcionárias também são um fator importante na linha de defesa e prevenção contra ataques. Por isso, devem adotar uma postura orientada por protocolos de segurança para impedir tais incidentes sem interromper o fluxo dos negócios.

Apesar de estarem em evidência, os ataques cibernéticos não são os únicos que têm sido ponto de atenção também nas empresas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade, com impacto de quase um trilhão de dólares à economia global. Ainda segundo um estudo da entidade, um bilhão de pessoas que viviam com algum transtorno mental em 2019, 15% dos adultos em idade laboral sofreram um transtorno mental. Nesse contexto, o trabalho pode ser um dos fatores que afetam negativamente a saúde psicológica. Apesar disso, segundo o relatório da OMS, discutir ou divulgar o tema continua sendo um tabu no ambiente corporativo em todo o mundo, o que levou a entidade e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a elaborarem uma série de diretrizes para que governos e empresas possam lidar com a situação.

Assim como já se admite a cibersegurança como um conhecimento fundamental e a urgência da necessidade de educar as pessoas sobre os perigos na Internet, por que não difundir a importância de se seguir protocolos de segurança na mesma medida que devemos cuidar da própria saúde emocional? Regras, posturas, atitudes e hábitos que possam ser aplicados de forma constante e consistente, assim como as práticas de segurança cibernética que são mantidas em empresas. Assim, seria possível criar uma política de segurança e proteção para a saúde emocional, visando garantir bem-estar, felicidade e sucesso tanto na vida pessoal quanto na profissional.

Daniel Goleman foi um dos pioneiros a destacar a importância de reconhecer e gerir as emoções, colocando-as em pé de igualdade com o QI. Apesar de não ter introduzido o conceito de Inteligência Emocional, o psicólogo, escritor e PhD da Universidade de Harvard, é o grande responsável por popularizá-lo. Em 1995, quando atuava como jornalista científico do New York Times, lançou o livro “Inteligência Emocional”, em que traz à tona o embate entre o QE (Quociente Emocional) e o QI (Quociente de Inteligência). Goleman descreve a Inteligência Emocional como uma habilidade fundamental para o gerenciamento adequado e eficaz dos sentimentos, e acredita que o controle emocional, ou melhor, a gestão das emoções, é chave para o desenvolvimento da inteligência de um indivíduo. O escritor propõe ainda que a compreensão e prática da Inteligência Emocional pode levar a um crescimento pessoal e profissional mais saudável e efetivo.

Goleman reconhece o caos gerado pelo excesso de informações, mas enfatiza que se não pudermos ignorar esse cenário, devemos aprender a lidar com ele para sobreviver e viver momentos plenos e felizes. Essa ideia não é nova. Desde os tempos antigos, filósofos como Aristóteles, Confúcio e Platão incluíam a felicidade em suas obras. Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e o principal autor da declaração de independência dos Estados Unidos, colocou a “busca da felicidade” ao mesmo nível da vida e da liberdade. E a ciência tem comprovado que ser feliz é um fator importante para a saúde física e mental. Estudos, como o conduzido pela Harvard School of Public Health em 2020, têm revelado que pessoas otimistas têm menos chances de desenvolver hipertensão. Já o Relatório Mundial da Felicidade, publicado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, aponta que a felicidade torna nossos corações mais saudáveis, bem como o sistema imunológico mais forte e nossa vida longeva.

Pesquisadora da Universidade da Califórnia, Sonja Lyubomirsky afirma que a felicidade tem, de fato, inúmeros subprodutos positivos, que parecem beneficiar não apenas os indivíduos, mas também as famílias, as comunidades e a sociedade em geral. E que seus benefícios da felicidade incluem maior renda e melhores resultados no trabalho (como por exemplo, mais produtividade e maior qualidade de trabalho); maiores recompensas sociais, com casamentos mais duradouros e satisfatórios, mais amigos, mais apoio e interações sociais; mais atividade e energia; uma melhor saúde física proporcionada por um sistema imunológico fortalecido, níveis de estresse reduzidos e menos dor; e mais longevidade. Para ela, indivíduos felizes são mais criativos, prestativos, caridosos e autoconfiantes, têm melhor autocontrole e mostram mais habilidades de autorregulação e enfrentamento.

Adquirir uma rotina de bem-estar emocional, no entanto, é um processo gradual e contínuo. Para isso é necessário adotar protocolos e “softwares” que proporcionem maior segurança contra ataques emocionais. Um tipo de firewall. Descrevo a seguir 9 medidas que fui adotando ao longo dos últimos anos, com maior consciência nos últimos quatro anos, para mitigar diversas dessas ameaças, tanto externas quanto internas. Os livros citados fizeram parte da minha jornada pessoal. Uma prática que pode ser comparada à de um programador que precisa começar conhecendo quais são os códigos, qual o funcionamento do seu sistema operacional e as suas linguagens de programação a fim de proteger e preservar os seus dados, para desenvolver as aplicações e inovar.

Medida 1: Em primeiro lugar, aprenda sobre o funcionamento do seu cérebro e como construir um plano de vida associado à análise, terapia, conhecimento e prática intencional. Tal conhecimento é relevante para criar estratégias de bem-estar emocional. Dessa forma, a terapia e a análise podem ajudar a compreender melhor as emoções, a lidar com traumas e a estabelecer metas realistas. Assim, como leitura para ajudar nesta jornada de conhecimento. Livros como “O Milagre da Manhã”, de Hal Elrod, “Lifelong Learners”, de Conrado Schlochauer, e “Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso”, de Carol S. Dweck, pode ser também seus primeiros passos, como foram os meus.

Medida 2: Está ligada ao equilíbrio dos quatro elementos essenciais para uma vida emocionalmente saudável: intenção, atenção, cognição e emoções. Não como meta, mas por meio de uma abordagem de cultivo e gerenciamento. A ideia tem origem no programa Cultivating Emotional Balance, do psicólogo e especialista no estudo das emoções Paul Ekman e do professor de filosofia budista Alan Wallace. O programa, que tem sido conduzido e disseminado também, por Eve Ekman, filha de Paul e também especialista em emoções, traz uma abordagem prática e baseada em evidências científicas ajudando a administrar o estresse, a ansiedade e outras questões emocionais e aprimorando habilidades de autoconhecimento e regulação emocional e combinando técnicas de meditação, reflexão e diálogo, no qual eu fiz a formação. No Brasil, a formação de profissionais certificados pelo programa é realizada pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein.

Medida 3: Coloque em prática o treinamento das habilidades emocionais e contemplativas, como a meditação, que apoia a reestruturação do funcionamento do cérebro. Isso favorece o raciocínio e a flexibilidade cognitiva, além disso, estudos indicam diferenças na estrutura do cérebro como maior espessura do córtex cerebral em áreas relacionadas à atenção em praticantes de meditação comparados a não praticantes

Medida 4: Fazer exercícios físicos todos os dias também é fundamental. A Organização Mundial da Saúde recomenda 150 minutos semanais de atividade física, o que significa apenas 22 minutos por dia. A prática regular ajuda a prevenir doenças cardíacas, obesidade, diabetes e outras doenças.

Medida 5: O sono adequado também é crucial para a saúde emocional. Segundo o neurocientista Matthew Walker, autor do livro “Por que nós dormimos: a nova ciência do sono e do sonho”, o sono de qualidade é essencial para o bom funcionamento do cérebro e a regulação das emoções. Estudos têm mostrado que a falta de sono está relacionada a problemas como ansiedade, depressão e irritabilidade. A criação de uma rotina de repouso consistente auxilia na qualidade do sono.

Medida 6: O sexto protocolo está ligado à criação de hábitos saudáveis e hobbies. Segundo o livro “O poder do hábito” de Charles Duhigg, 40% de nossas ações diárias são movidas por hábitos. Sendo os saudáveis: dormir bem, alimentar-se de forma balanceada e praticar exercícios físicos contribui significativamente. Além disso, ter hobbies e atividades que nos dão prazer aumenta nossa sensação de bem-estar e reduz o estresse.

Medida 7: É preciso ainda cultivar vínculos e empatia. De acordo com o livro “Felicidade Autêntica” de Martin E. P. Seligman, as pessoas mais felizes têm mais relacionamentos positivos e são capazes de sentir empatia pelos outros e nos habilitam a enfrentarem momentos difíceis e de crise. Não podemos deixar de lado o convívio. Criar laços sociais alivia as pressões do dia a dia e aumenta o sentimento de pertencimento evitando a solidão prejudicial à saúde física e emocional.

Medida 8: No livro “Essencialismo: A Disciplinada Busca por Menos”, Greg McKeown defende que fazer pausas e descansar a mente é fundamental para manter a produtividade e a criatividade. Diminui o estresse e a ansiedade.

Medida 9: Por fim, é preciso cultivar a fé e o otimismo. Livros como “Uma Vida com Propósito” de Rick Warren é “Mais Esperto que o Diabo” de Napoleon Hill defendem a importância de ter uma perspectiva positiva sobre a vida. Acreditar em algo maior do que nós mesmos e manter uma visão otimista pode ajudar a lidar com as adversidades.

Essa governança e política de segurança podem ser adquiridas por meio da aplicação diária desses protocolos e da leitura desses e de outros livros que tratam do tema. Mas é importante ressaltar que o processo é individual, leva tempo, e não tem uma meta final a ser alcançada. É viver a jornada e cultivar equilíbrio e desequilíbrios. É hora de ativar o firewall emocional.


COO & Growth of Latin America na Oracle e professora de marketing digital, liderança, tecnologia e inteligência emocional.

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