Está ficando mais difícil vencer as altas temperaturas. Durante o verão de 2025, ondas de calor derrubaram redes elétricas na América do Norte, na Europa e no Oriente Médio. O aquecimento global significa que mais pessoas precisam de aparelhos de ar-condicionado, o que exige mais energia e sobrecarrega as redes. Mas uma ideia milenar pode oferecer uma resposta: o resfriamento radiativo. Tintas, revestimentos e têxteis podem dispersar a luz solar e dissipar calor sem a necessidade de energia adicional.
“O resfriamento radiativo é universal, existe em todos os lugares no nosso dia a dia”, diz Qiaoqiang Gan, professor de Ciência dos Materiais e Física Aplicada na King Abdullah University of Science and Technology, na Arábia Saudita. Praticamente qualquer objeto vai absorver calor do sol durante o dia e irradiar parte dele de volta à noite. É por isso que carros estacionados do lado de fora durante a noite muitas vezes ficam cobertos de condensação, diz Gan. Seus tetos de metal dissipam calor para o céu, resfriando as superfícies abaixo da temperatura do ar ambiente. É assim que se forma o orvalho.
Humanos têm aproveitado esse processo natural básico por milhares de anos. Povos do deserto do Irã, no norte da África e na Índia fabricavam gelo deixando poças de água expostas a céus desertos limpos durante a noite, quando o resfriamento radiativo acontece naturalmente. Outras culturas construíram “telhados frios” cobertos com materiais refletivos que dispersavam a luz solar e reduziam as temperaturas internas. “As pessoas tiram proveito desse efeito, conscientemente ou inconscientemente, há muito tempo”, diz Aaswath Raman, cientista de materiais na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, nos Estados Unidos, e cofundador da startup de resfriamento radiativo SkyCool Systems.
Abordagens modernas, de telhados de supermercados na Califórnia ao pavilhão da Expo 2025 do Japão, vão ainda mais longe. Normalmente, se o sol está alto e bombeando calor, as superfícies não conseguem ficar mais frias do que a temperatura ambiente. Mas, em 2014, Raman e seus colegas alcançaram resfriamento radiativo durante o dia. Eles personalizaram filmes fotônicos para absorver e depois irradiar calor em comprimentos de onda infravermelhos entre 8 e 13 micrômetros, uma faixa de comprimentos de onda eletromagnéticos chamada de “janela atmosférica”, porque essa radiação escapa para o espaço em vez de ser absorvida. Esses filmes conseguiam dissipar calor, mesmo sob sol pleno, resfriando o interior de um prédio para -12ºC, abaixo da temperatura ambiente, sem ar-condicionado nem fonte de energia.
Isso foi uma prova de conceito. Hoje, diz Raman, a indústria, em grande parte, afastou-se da fotônica avançada, que usa o efeito da janela atmosférica e passou a materiais mais simples que dispersam a luz solar. Telhados frios de cerâmica, revestimentos de nanoestrutura e polímeros refletivos oferecem a possibilidade de desviar mais luz solar em todos os comprimentos de onda, e são mais duráveis e escaláveis.
Agora, a corrida começou. Startups como SkyCool, Planck Energies, Spacecool e i2Cool estão competindo para fabricar e comercializar revestimentos que reflitam pelo menos 94% da luz solar na maioria dos climas, e acima de 97% em climas tropicais úmidos. Projetos-piloto já forneceram resfriamento significativo para edifícios residenciais, reduzindo as necessidades de energia do ar-condicionado de 15% a 20% em alguns casos.
Essa ideia pode ir muito além de telhados e estradas refletivos. Pesquisadores estão desenvolvendo têxteis refletivos que podem ser usados por pessoas com maior risco de exposição ao calor. “Isso é gestão térmica pessoal”, diz Gan. “Podemos realizar resfriamento passivo em camisetas, roupas esportivas e peças de vestuário.”
É claro que essas tecnologias e esses materiais têm limites. Assim como redes elétricas a partir da energia solar, elas são vulneráveis ao clima. Nuvens impedem que a luz solar volte para o espaço. Poeira e poluição do ar ofuscam as superfícies brilhantes dos materiais. Muitos revestimentos perdem sua refletividade depois de alguns anos. Os materiais mais baratos e mais resistentes usados no resfriamento radiativo tendem a depender de Teflon e outros fluoropolímeros, “químicos eternos” que não se biodegradam, representando um risco ambiental. “Eles são a melhor classe de produtos que tende a sobreviver ao ar livre”, diz Raman. “É possível ampliar a escala a longo prazo sem usar fluoropolímeros, mantendo a durabilidade e o baixo custo?”
Como em qualquer outra solução para os problemas da mudança climática, um único tamanho não serve para todos. “Não podemos ser otimistas demais e dizer que o resfriamento radiativo pode atender a todas as nossas necessidades futuras”, diz Gan. “Ainda precisamos de um ar-condicionado ativo mais eficiente.” Um telhado brilhante não é uma panaceia, mas ainda assim é bem legal.



