RFK Jr. segue uma dieta carnívora. Isso não significa que você deva fazer o mesmo
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RFK Jr. segue uma dieta carnívora. Isso não significa que você deva fazer o mesmo

Grande parte dos conselhos alimentares nas redes sociais, promovidos pelo movimento ‘Make America Healthy Again’, deve ser encarada com cautela

Os estadunidenses têm um novo conjunto de diretrizes alimentares. Robert F. Kennedy Jr., secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, pegou uma pirâmide alimentar à moda antiga, virou-a de cabeça para baixo e colocou um bife e um pedaço de manteiga em posições de destaque.

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Kennedy e seus colegas do Make America Healthy Again (Faça a América saudável de novo, em tradução livre) há muito tempo vêm exaltando as virtudes da carne e dos laticínios integrais, então não foi muito surpreendente ver esses alimentos recomendados ao lado de vegetais e grãos integrais (apesar do fato bem estabelecido de que gordura saturada em excesso pode ser extremamente ruim para você).

Alguns influenciadores levaram a tendência da carne a extremos, seguindo uma dieta carnívora. “A melhor coisa que você poderia fazer é eliminar tudo, exceto carne gordurosa e banha”, disse Anthony Chaffee, um médico com quase 400 mil seguidores, em uma postagem no Instagram.

E eu quase engasguei com meu brócolis quando, ao rolar o LinkedIn, me deparei com uma entrevista com outro médico declarando que “não há nenhuma evidência científica de que vegetais sejam necessários na dieta humana”. Esse médico, que se descreveu como “90% carnívoro”, continuou dizendo que tudo o que havia comido no dia anterior foi um quilo de carne bovina, e que vegetais têm “antinutrientes”, seja lá o que isso possa significar.

Você não precisa passar muito tempo nas redes sociais para se deparar com alegações como essas. O influenciador “tradicionalista”, autor e psicólogo, Jordan Peterson promovia uma dieta só de carne já em 2018. Uma revisão recente de pesquisas sobre desinformação nutricional nas redes sociais constatou que a maior parte das informações sobre dieta é compartilhada no Instagram e no YouTube, e que muita coisa é nonsense. A tal ponto que os autores descrevem isso como uma “crescente preocupação de saúde pública”.

O que é novo é que parte dessa desinformação vem das pessoas que agora lideram as agências federais de saúde dos Estados Unidos. Em janeiro, Kennedy, que lidera o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, disse a um repórter do USA Today que estava em uma dieta carnívora. “Eu só como carne ou alimentos fermentados”, disse ele. Em seguida, afirmou que a dieta o ajudou a perder “40% da [sua] gordura visceral em um mês”.

“O governo precisa parar de espalhar desinformação de que gorduras naturais e saturadas são ruins para você”, argumentou o comissário da Administração de Alimentos e Medicamentos (Food and Drug Administration, ou FDA), Martin Makary, em uma entrevista recente para um podcast. Os princípios de “alimentos integrais e carnes limpas” são “bíblicos”, disse ele. O entrevistador disse que os alertas dele sobre pesticidas o fizeram querer “evitar todas as saladas e ignorar completamente a seção de orgânicos no supermercado”.

Para constar: há muitas evidências de que uma dieta rica em gordura saturada pode aumentar o risco de doença cardíaca. Isso não é desinformação do governo.

A sugestão dos médicos carnívoros de evitar vegetais também está errada, diz Gabby Headrick, diretora associada de política de alimentos e nutrição no Institute for Food Safety & Nutrition Security da Universidade George Washington, nos Estados Unidos. Não há evidências que sugiram que uma dieta só de carne seja boa para você. “Toda a ciência da nutrição até hoje identifica fortemente uma ampla variedade de vegetais… como sendo muito promotores de saúde”, acrescenta ela.

Para ser justo com os influenciadores por aí, dieta é algo difícil de estudar. Grande parte das pesquisas em nutrição depende de voluntários para manter diários alimentares detalhados e honestos, algo em que as pessoas, em geral, são bastante ruins. E a forma como nossos corpos respondem aos alimentos pode ser influenciada por nossa genética, nossos microbiomas, a maneira como preparamos ou consumimos esses alimentos, e quem sabe o que mais.

Ainda assim, não vai surpreender ninguém que haja muita coisa do que o estudo acima chama de “conteúdo de baixa qualidade” circulando nas redes sociais. Então vale a pena nos munirmos com uma boa dose de ceticismo, especialmente quando nos deparamos com postagens que mencionam “alimentos milagrosos” ou dietas extremas e limitadas.

A verdade é que a maioria dos alimentos não é nem boa nem ruim quando consumida com moderação. Tendências alimentares vão e vêm e, para a maioria das pessoas, o melhor conselho razoável é simplesmente fazer uma alimentação equilibrada, com pouco açúcar, sal e gordura saturada. Você sabe, o básico. Não importa o que aquela estranha pirâmide alimentar de cabeça para baixo implique. Aos influenciadores carnívoros, eu digo: tirem a desinformação do meu brócolis.

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