No Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, ao conversar com qualquer pessoa, pude perceber que as únicas coisas sobre as quais todo mundo queria falar eram Inteligência Artificial e Trump.
Davos é definida fisicamente pelo Centro de Congressos, onde acontecem as sessões oficiais do Forum Econômico Mundial, e pela Promenade, uma rua que atravessa o centro da cidade, com várias “casas”, em sua maioria varejistas, que são convertidas temporariamente em polos de reunião para diversos patrocinadores corporativos ou nacionais. Então há uma Casa da Ucrânia, uma Casa do Brasil, uma Casa da Arábia Saudita e, sim, uma Casa dos Estados Unidos. Há algumas casas de mídia, de veículos como a CNBC e o Wall Street Journal, e outras são dedicadas a temas específicos. Por exemplo: há uma para ciência e outra para IA.
Mas, como todo o resto, em 2026, a Promenade é dominada por empresas de tecnologia. Em um momento, percebi que literalmente tudo o que eu conseguia ver, em um ponto em que a estrada faz uma leve curva, era uma casa de empresa de tecnologia. Palantir, Workday, Infosys, Cloudflare, C3.ai. Talvez isso nem precisasse ser dito, mas a presença delas, tanto nas casas quanto nos vários palcos, festas e plataformas, realmente deixou claro para mim o quanto, de forma absoluta e completa, a tecnologia capturou a economia global.
Enquanto as casas sediam eventos e servem como polos de networking, o grande espetáculo acontece dentro do Centro de Congressos. Dei início à minha experiência oficial em Davos ali, moderando um painel com os CEOs da Accenture, da Aramco, da Royal Philips e da Visa. O tema era ampliar o uso de IA dentro das organizações. Todos esses líderes representavam empresas que passaram de projetos-piloto para grandes implementações internas. Foi, para mim, uma conversa fascinante. A minha conclusão foi que, embora haja muitas histórias sobre a IA ser superestimada (inclusive de nós), ela certamente está tendo efeitos substanciais em grandes empresas.
O CEO da Aramco, Amin Nasser, por exemplo, descreveu como a empresa encontrou de 3 a 5 bilhões de dólares em economia de custos ao melhorar a eficiência de suas operações. O CEO da Royal Philips, Roy Jakobs, descreveu como isso estava permitindo que profissionais de saúde passassem mais tempo com pacientes ao fazer coisas como anotações automatizadas. (Isso realmente repercutiu comigo, já que minha esposa é enfermeira de pediatria e, há décadas, ouço ela falar sobre quanto do tempo dela é dedicado ao preenchimento de prontuários.) E o CEO da Visa, Ryan McInerney, falou sobre o impulso da sua empresa em direção ao comércio com agentes e como isso vai se desenrolar para consumidores, pequenas empresas e a indústria global de pagamentos.
Para elaborar um pouco sobre esse ponto, McInerney pintou um quadro do comércio em que agentes não apenas vão comprar coisas que você pedir, o que será basicamente o passo um, mas, com o tempo, serão capazes de comprar coisas com base nas suas preferências e padrões de gastos anteriores. Isso pode ser a sua compra regular de supermercado ou até uma escapada de férias. Isso vai exigir muita confiança e autenticação para proteger tanto comerciantes quanto consumidores, mas está claro que os passos em direção ao comércio com agentes que vimos em 2025 foram apenas passos de bebê. Há saltos muito maiores vindo para 2026. (Coincidentemente, tive uma conversa com um executivo sênior da Mastercard, que fez vários dos mesmos pontos.)
Mas o que realmente repercutiu comigo no painel foi um comentário da CEO da Accenture, Julie Sweet, que tem uma visão não só da própria grande organização dela, mas de um espectro de empresas: “É difícil confiar em algo até você entendê-lo”.
Achei que isso resumiu de forma elegante onde estamos, como sociedade, com a IA.
Claramente, outras pessoas sentem o mesmo. Antes do início oficial da conferência, eu estava na Casa da IA para um painel. O lugar estava lotado. Havia uma fila enorme e constante para entrar e, uma vez lá dentro, eu literalmente tive de abrir caminho à força pela multidão. Todo mundo queria entrar. Todo mundo queria falar sobre IA.
(Um parêntese rápido sobre o que eu estava fazendo lá: participei de um painel chamado “Criatividade e Identidade na Era dos Memes e Deepfakes”, conduzido pelo CEO da The Atlantic, Nicholas Thompson; contou com a artista Emi Kusano, que trabalha com IA, e Duncan Crabtree-Ireland, o principal negociador do SAG-AFTRA, que tem estado no centro de muitos dos debates sobre IA nas indústrias de cinema e games. Não vou gastar muito tempo descrevendo, porque já estou me alongando, mas foi um painel eletrizante.)
E, ok. Suspiro. Donald Trump.
O presidente esteve em Davos, em meio a ameaças de tomar a Groenlândia e temores de fraturar permanentemente a aliança da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Enquanto a IA está por toda parte, nos palcos, Trump está dominando todas as conversas paralelas. Há muitas piadinhas. Risos nervosos. Raiva explícita. Medo nos olhos. É insano.
Essas conversas também transbordaram para o público. Logo depois do meu painel, fui a um pavilhão fora do salão principal no Centro de Congressos. Vi alguém descendo as escadas com um pequeno séquito, que de repente foi cercado por câmeras e celulares.
Momentos antes, no mesmo lugar, a imprensa havia cercado David Beckham, gritando perguntas para ele. Então, eu já estava preparado para ver outra celebridade, afinal, capitães da indústria estavam por toda parte onde você olhava. Quero dizer, eu tinha acabado de esbarrar em Eric Schmidt, que estava literalmente na fila à minha frente no café. Davos é estranha.
Mas, na verdade, era Gavin Newsom, o governador da Califórnia, que é cada vez mais visto como a principal voz da oposição democrata ao presidente Trump e um provável concorrente, ou até favorito, na corrida para substituí-lo. Como moro em San Francisco, encontrei Newsom muitas vezes, desde seus primeiros dias como supervisor da cidade, antes mesmo de ele ser prefeito. Raramente, raramente, eu o vi tão exaltado.
Entre outras coisas, ele chamou Trump de narcisista que segue “a lei da selva, a regra do Don” e o comparou a um T-Rex, dizendo: “Ou você acasala com ele, ou ele devora você”. E ele foi igualmente duro com os líderes mundiais, muitos dos quais estão reunidos em Davos, chamando-os de “patéticos” e dizendo que deveria ter trazido joelheiras para eles.
Eita.
Houve mais desse sentimento, ainda que em tons mais comedidos, do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, durante seu discurso em Davos. Embora eu tenha perdido as declarações dele, elas fizeram as pessoas comentarem. “Se não estamos à mesa, estamos no cardápio”, argumentou ele.


