Consumindo e produzindo novas formas de moda com Slow Fashion
Negócios e economia

Consumindo e produzindo novas formas de moda com Slow Fashion

Atriz e empreendedora, Marina Ruy Barbosa lançou a Ginger e, assim, cumpriu o sonho de ter uma marca de moda. Criada em 2020, a empresa superou desafios em seu primeiro ano de atividade e já apresenta resultados significativos dentro do mercado.

Sonho de infância sustentável

Meu sonho de infância era ter minha própria marca de moda. Essa foi uma paixão que nutri ao longo dos anos e o meu interesse pela moda foi crescendo de forma exponencial ao longo do tempo. A minha carreira de atriz me proporcionou a grande oportunidade de envolvimento com o setor de maneira expressiva. Participei de grandes campanhas, fui convidada para grandes eventos dentro e fora do Brasil, estive na primeira fila das maiores semanas de moda do mundo. Mas eu sentia que estava vivendo a moda do lado do espectador, do consumidor, do admirador, e eu queria mais. Essas oportunidades e o contato direto com as grandes marcas apuraram o meu olhar e expandiram o meu repertório, o que fez com que eu me sentisse mais preparada para encarar o desafio de empreender dentro do setor. Neste ponto, pesou a questão do tempo. Devido aos meus diversos compromissos de trabalho, eu estava sempre planejando e sonhando com esse novo passo, mas não era possível colocar as ideias em prática. Com a pandemia e a pausa imposta a todos nós, finalmente consegui tempo para tirar as ideias do papel.

Assim, eu e minha equipe lançamos a Ginger em julho de 2020, em meio à pandemia, com o país e o mercado da moda em uma situação muito frágil. O desafio foi muito grande, pois era uma situação inédita e não havia um road map a ser seguido. A escolha do time foi totalmente remota. Ausência de matérias primas, atrasos nas entregas e fornecedores passando por dificuldades são apenas alguns exemplos do que enfrentamos durante esse processo. Porém, o importante era seguir em frente e apoiar a moda nacional naquele momento tão delicado.

Em 2020, nosso faturamento cresceu 1010%. Agora, já temos um ano de marca e continuamos crescendo de maneira significativa. Sou muito grata aos meus fornecedores e parceiros por entrarem comigo nessa jornada, pois sinto que demos as mãos para encarar essa situação juntos e que todos saímos mais fortes do outro lado.

Sustentabilidade

Um ponto importante foi a escolha do nosso modelo de negócio. Optamos pelo slow fashion, em que nossa produção não está atrelada aos calendários tradicionais da moda. É uma proposta mais editada, com menos lançamentos e contra o consumo desenfreado e descartável da grande maioria dos players do mercado. Além disso, a opção por um produto 100% brasileiro também ajuda a fomentar o setor, sendo uma escolha da qual me orgulho.

No entanto, para aprofundarmos o tema, precisamos entender como se deu o movimento fast fashion, presente na maior parte do mercado de moda e que se baseia em uma filosofia consumista, contrária ao slow fashion.

As empresas de fast fashion têm, como sua essência e foco, roupas que duram apenas uma temporada, de curta duração, ou seja, a moda como forma de consumo extremamente rápida, com contínuas mudanças de tendências.

Mais recentemente, no mundo da moda, onde o consumo vem levando à exploração excessiva de recursos naturais, vem ganhando força o conceito de slow fashion. Ao traduzirmos de forma literal, a expressão slow fashion, em português, significa moda lenta. Para ser mais fiel ao que o movimento traduz, é um novo jeito de produção de peças, em que a qualidade do produto vale mais que a quantidade. Prega-se uma fabricação focada na sustentabilidade, em menos impacto aos recursos naturais, e assim uma maior consciência ambiental. Alguns estilistas brasileiros vêm trabalhando com suas marcas com recursos e conceitos de slow fashion, dentre elas podemos citar Comas, Mel, The LouLou, Mudha, Maria Tangerina, entre outras.

Nesse contexto, a Ginger nasce de uma delicada combinação entre a moda autoral, a paixão pela estética e o respeito pela natureza. A marca abraça o presente enquanto volta o olhar para o futuro, livre das amarras das estações e preocupada com o seu impacto. Contra o efêmero e o superficial, preza pelo consumo inteligente e editado. A Ginger foi pensada para unir conforto, estilo e arte por meio de peças versáteis, com qualidade e design atemporal.

Nós no preocupamos, também, com a escolha dos tecidos, materiais e embalagens, que reforçam a nossa vontade de ressignificar e realizar escolhas mais conscientes. As tags das roupas são feitas de papel semente – um papel reciclado, ecológico e artesanal, assim como as etiquetas são de fio reciclado.

A Ginger também criou ecobags reutilizáveis, produzidas com material biodegradável. Já as embalagens de papel para o envio de produtos têm o selo eureciclo, que garante recompensação ambiental e gera incentivos para aumentar a taxa de reciclagem no país.

Pontos de transformação

A transformação é um dos valores mais importantes para a Ginger e pode ser alcançada de diversas maneiras. Trabalhamos com diversos pontos de transformação dentro e fora de empresa. Queremos fazer parte do movimento de novas marcas que contribuem para o mundo e que estão empenhadas em construir uma sociedade melhor e mais consciente.

Quando pensamos em slow fashion não estamos falando somente de sustentabilidade, pois esse processo está intrinsicamente ligado a mudança de mercado baseado em como as pessoas consomem a moda, mas também em como esse processo vem modificando a moda em si. De forma significativa, o slow fashion é um movimento em prol da inclusão de gênero. Ele traz uma predominância de liberdade diante a todos os padrões estéticos e sociais culturais impostos pela nossa sociedade, uma vez que as novas criações caminham junto à diversidade em contraposição às normas da moda de um modo geral. A forma que nos vestimos diz muito sobre nós. Dentro de um contexto histórico, a moda caminha lado a lado com as nossas perspectivas, valores, vontades e em que somos e principalmente a nossa expressão. Cada roupa leva consigo fontes de inúmeras lembranças e sensações, e, poder elaborar peças que não ferem ou agridam a existência de qualquer corpo é primordial para a consciência humana na construção de um mundo mais justo e igualitário.

Como parte desse todo, atrelamos nosso lançamento a uma causa social importante: 100% do lucro da nossa primeira coleção foi doado à Instituição Gerando Falcões, que ajuda a transformar a vida de moradores das favelas em todo o Brasil pela combinação de educação socioemocional, profissional e acesso às tecnologias. Assim, alinhamos a nossa estreia a uma ação social relevante e ajudamos o Brasil em um momento de muita vulnerabilidade. Essa ação obteve sucesso, pois todo o nosso estoque se esgotou em menos de 12 horas.

Em seguida, para celebrar o Dia da Amazônia, estabelecemos uma parceria com a Casa do Rio, instituição sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento humano e territorial, por meio da educação integral, empreendedorismo e agroecologia no estado do Amazonas. Todo o lucro dessa coleção especial de moletons foi revertido para auxiliar na construção de um viveiro agroflorestal, item essencial para ajudar no reflorestamento e no desenvolvimento das comunidades locais. A marca Ginger sempre busca causas relevantes para apoiar.

Equilíbrio

Conciliar o empreendedorismo e a carreira de atriz implica em muitos desafios, mas o sucesso da empresa em tão pouco tempo mostra que é possível haver equilíbrio entre os dois papéis. Outro ponto importante é a influência da imagem da atriz sobre os consumidores da marca. Não há como negar a relevância das minhas redes sociais. É necessária muita responsabilidade, pois as mídias sociais alcançam um grande público. No entanto, honestamente, não acredito que meu papel como influenciadora foi essencial para impulsionar o negócio. Inclusive, sempre estabeleci a separação entre a celebridade e a empreendedora. Em minha opinião, essa compartimentação é fundamental para a saúde do negócio. O desenvolvimento da Ginger ocorreu com os próprios recursos da empresa, objetivo buscado desde o seu planejamento, o que resultou em uma empresa sólida e saudável, independente da minha imagem.

Apesar disso, o poder dos influenciadores digitais como poderosa ferramenta de vendas e de posicionamento é inegável. Ainda assim, não acho que funcione de maneira isolada. Sem um bom planejamento e a estrutura das demais áreas da empresa, nenhum negócio consegue prosperar apenas pela imagem.

Relacionamento com os consumidores

A relação com os consumidores da Ginger é muito honesta e próxima. É muito importante estabelecer essa conexão, não apenas para comunicar as nossas ações de maneira eficiente, mas também para obter o feedback direto do público. Essa troca implica em muito valor e beneficia os dois lados – nós criamos peças que fazem mais sentido para o nosso cliente que se sente acolhido e respeitado dentro de suas necessidades. Da mesma forma, essa abertura nos permite levar mensagens importantes para o público, como ocorre com a promoção de causas sociais.

Slow fashion é um conceito em torno da valorização da roupa. Entrando mais a fundo em como ela foi produzida, quais matérias primas utilizadas e transparência nas práticas aplicadas, tem como objetivo desenvolver uma aproximação com o cliente, pois torna a confiança presente aproximando de maneira genuína e transformadora quem produz e quem consome. Esse movimento realça o conceito de que a moda é uma escolha e não um mandato e é esse o conceito que a Ginger acredita.

Existe uma relação de confiança e respeito onde nos unimos para fazer o bem. Orgulho-me do nosso relacionamento com as consumidoras da Ginger e, hoje, só nas mídias sociais, contamos com uma comunidade de mais de 270 mil pessoas. Esse senso de comunidade é fundamental para a perpetuidade da marca, especialmente em um ambiente digital.

Futuro

Não precisamos falar apenas sobre o futuro. Nos dias de hoje, já não se admite uma nova empresa que não esteja disposta a contribuir para uma sociedade mais justa e responsável. No cenário da moda, a introdução do conceito eco fashion e moda consciente nos mostra que não precisamos consumir de forma avassaladora. É preciso, também, entender os caminhos que o mundo atual trilha, repensando esse lugar de consumo de uma maneira responsável e criativa, fazendo do compartilhamento e reuso um alicerce do futuro.

Esse aspecto não se restringe a setores específicos. É possível fazer parte de ações de impacto de diversas formas, como apoiar as causas sociais, escolher processos de produção e matérias-primas mais sustentáveis, reeducar o cliente em relação ao consumo, entre outras. Existem vários caminhos. Eu acredito não há ação ou ajuda muito pequena. As empresas têm condições e capacidades distintas de contribuir, mas o empenho para encontrar uma forma de fazer a diferença, cada uma a sua maneira, é essencial. Esses valores fazem parte do futuro que precisamos construir juntos.


Este artigo foi produzido por Marina Ruy Barbosa.

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