Conheça o homem que caça espiões no seu smartphone
Computação

Conheça o homem que caça espiões no seu smartphone

Ronald Deibert trabalha para revelar ameaças digitais alarmantes nas últimas duas décadas. Agora, esse tipo de trabalho está sob ameaça

Em abril de 2025, Ronald Deibert deixou todos os dispositivos eletrônicos em casa, em Toronto, no Canadá, e embarcou em um avião. Quando aterrissou em Illinois, nos Estados Unidos, pegou um táxi até um shopping e foi direto à Apple Store para comprar um novo laptop e um iPhone. Ele queria manter ao mínimo o risco de ter seus dispositivos pessoais confiscados, porque sabia que seu trabalho o tornava um alvo prioritário para vigilância. “Estou viajando sob a suposição de que estou sendo observado, até exatamente onde estou, a qualquer momento”, diz Deibert.

Mini Banner - Assine a MIT Technology Review

Deibert dirige o Citizen Lab, um centro de pesquisa que ele fundou, em 2001, para atuar como “contrainteligência para a sociedade civil”. Sediado na Universidade de Toronto, o laboratório opera de forma independente de governos ou interesses corporativos, apoiando-se, em vez disso, em bolsas de pesquisa e filantropia privada para obter suporte financeiro. É uma das poucas instituições que investigam ameaças cibernéticas exclusivamente no interesse público e, ao fazê-lo, expôs alguns dos abusos digitais mais flagrantes das últimas duas décadas.

Por muitos anos, Deibert e seus colegas tomaram os Estados Unidos como o padrão de democracia liberal. Mas isso está mudando, diz ele: “Os pilares da democracia estão sob ataque nos Estados Unidos. Por muitas décadas, apesar de suas falhas, o país sustentou normas sobre como é, ou como deveria aspirar a ser, uma democracia constitucional. Isso agora está em risco.”

Mesmo quando alguns de seus compatriotas canadenses evitaram viajar para os Estados Unidos após a segunda eleição de Donald Trump, Deibert apreciou a oportunidade de visitar o país. Além de suas reuniões com defensores de direitos humanos, ele também documentou vigilância ativa na Universidade Columbia, no auge dos protestos estudantis. Deibert tirou fotos de drones sobre o campus e registrou protocolos de segurança excepcionalmente rigorosos. “Era pouco ortodoxo ir aos Estados Unidos”, diz ele. “Mas eu realmente me sinto atraído por problemas no mundo.”

Deibert, de 61 anos, cresceu no leste de Vancouver, na Colúmbia Britânica, uma área áspera, com uma presença contracultural barulhenta. Nos anos 1970, Vancouver estava cheia de desertores do alistamento militar e hippies, mas Deibert aponta para o jornalismo investigativo americano, que expôs o programa de vigilância COINTELPRO, os Pentagon Papers e o caso Watergate, como a semente de seu respeito pelo sentimento anti-establishment. Ele, no entanto, não imaginava que esse fascínio se transformaria em uma carreira.

“Meus horizontes eram bem baixos porque eu vinha de uma família da classe trabalhadora e não havia muitas pessoas na minha família, na verdade, nenhuma que tivesse ido para a universidade”, diz ele.

Deibert acabou ingressando em um programa de pós-graduação em relações internacionais na Universidade da Colúmbia Britânica. Sua pesquisa de doutorado o levou a um campo de investigação que logo explodiria: as implicações geopolíticas da internet nascente.

“No meu campo, havia um punhado de pessoas começando a falar sobre a internet, mas era muito superficial e isso me frustrava”, diz ele. “E, enquanto isso, a ciência da computação era muito técnica, mas não política; política era quase como uma palavra suja.”

Deibert continuou a explorar esses temas na Universidade de Toronto quando foi nomeado para um cargo de professor na trilha de titularidade, mas só depois de fundar o Citizen Lab, em 2001, seu trabalho ganhou destaque global.

O que colocou o laboratório no mapa, diz Deibert, foi seu relatório de 2009, “Tracking GhostNet” (Rastreando a GhostNet, em tradução livre), que revelou uma rede de espionagem digital na China que havia invadido escritórios de embaixadas estrangeiras e diplomatas em mais de 100 países, incluindo o escritório do Dalai Lama. O relatório e sua continuação, em 2010, estiveram entre os primeiros a expor publicamente a cibervigilância em tempo real. Desde então, o laboratório publicou mais de 180 análises desse tipo, recebendo elogios de defensores de direitos humanos que vão de Margaret Atwood a Edward Snowden.

O laboratório investigou de forma rigorosa regimes autoritários ao redor do mundo (Deibert diz que tanto a Rússia quanto a China têm seu nome em uma “lista” que o proíbe de entrar nos países). O grupo foi o primeiro a revelar o uso de spyware (software malicioso instalado secretamente) para vigiar pessoas próximas ao dissidente saudita e jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi antes de seu assassinato. Sua pesquisa informou diretamente resoluções do G7 e da ONU sobre repressão digital e levou a sanções contra fornecedores de spyware. Ainda assim, em 2025, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (Immigration and Customs Enforcement, ou ICE, na sigla em inglês) reativou um contrato de US$ 2 milhões com a fornecedora de spyware, a Paragon. O contrato, que o governo Biden havia colocado sob uma ordem de interrupção de trabalho, se assemelha a medidas adotadas por governos na Europa e em Israel, que também implementaram spyware doméstico para lidar com preocupações de segurança.

“Isso salva vidas, literalmente”, diz Cindy Cohn, diretora executiva da Electronic Frontier Foundation, sobre o trabalho do laboratório. “Os pesquisadores do Citizen Lab foram os primeiros a realmente se concentrar em ataques técnicos contra defensores de direitos humanos e da democracia em todo o mundo. E ainda são os melhores nisso.”

Ao recrutar novos funcionários do Citizen Lab (ou “Labbers”, como eles se chamam entre si), Deibert deixa de lado acadêmicos sisudos, burocráticos, em favor de personalidades brilhantes e cheias de cor, muitas das quais vivenciaram pessoalmente a repressão de alguns dos mesmos regimes que o laboratório hoje investiga.

Noura Aljizawi, pesquisadora de repressão digital que sobreviveu à tortura nas mãos do regime de al-Assad na Síria, pesquisa a ameaça específica que as tecnologias digitais representam para mulheres e pessoas queer, sobretudo quando usadas contra nacionais exilados. Ela ajudou a criar o Security Planner, uma ferramenta que oferece orientação personalizada, revisada por especialistas, a pessoas que buscam melhorar sua higiene digital, trabalho pelo qual a Universidade de Toronto lhe concedeu um prêmio Excellence Through Innovation.

O trabalho do laboratório não é isento de riscos. Um integrante do Citizen Lab, Elies Campo, por exemplo, foi seguido e fotografado depois que o laboratório publicou um relatório de 2022 que expôs a vigilância digital de dezenas de cidadãos catalães e membros do parlamento, incluindo quatro presidentes da Catalunha que foram alvo durante ou após seus mandatos.

Ainda assim, a reputação e a missão do laboratório tornam o recrutamento relativamente fácil, diz Deibert. “Esse bom trabalho atrai um certo tipo de pessoa”, afirma. “Mas elas também costumam ser atraídas pela investigação. É trabalho de detetive, e isso pode ser altamente intoxicante, até viciante.”

Deibert frequentemente desvia os holofotes para seus colegas Labbers. Ele raramente discute as conquistas do grupo sem mencionar dois pesquisadores seniores, Bill Marczak e John Scott-Railton, ao lado de outros membros da equipe. E, quando alguém decide deixar o Citizen Lab para buscar outra posição, esse reconhecimento permanece.

“Temos um ditado: ‘Uma vez Labber, sempre Labber’”, diz Deibert.

Enquanto esteve nos EUA, Deibert ministrou um seminário sobre o trabalho do Citizen Lab para alunos de graduação da Northwestern University e fez palestras sobre autoritarismo digital na Columbia University Graduate School of Journalism. Universidades nos Estados Unidos vinham sendo submetidas a cortes de financiamento e a um escrutínio intensificado pelo governo Trump, e Deibert queria estar “no meio” dessas instituições para responder ao que ele vê como práticas autoritárias crescentes por parte do governo dos EUA.

Desde o retorno de Deibert ao Canadá, o laboratório continuou seu trabalho de revelar ameaças digitais à sociedade civil em todo o mundo. Agora, ele também precisa lidar com os EUA, um país que antes era seu parâmetro de democracia, mas que se tornou outro objeto de seu escrutínio. “Eu não acredito que uma instituição como o Citizen Lab poderia existir agora nos Estados Unidos”, diz ele. “O tipo de pesquisa em que fomos pioneiros está sob ameaça como nunca antes.”

Ele está particularmente alarmado com as pressões crescentes enfrentadas por órgãos federais de supervisão e instituições acadêmicas. Em setembro, por exemplo, o governo Trump retirou o financiamento do Council of the Inspectors General on Integrity and Efficiency, uma organização do governo dedicada a prevenir desperdício, fraude e abuso dentro de agências federais, citando preocupações com partidarismo. A Casa Branca também ameaçou congelar o financiamento federal a universidades que não cumprirem diretrizes relacionadas a gênero e liberdade de expressão no campus. Ações desse tipo, diz Deibert, minam a independência de órgãos de fiscalização e de grupos de pesquisa como o Citizen Lab.

Cohn, diretora da EFF, diz que a localização do laboratório no Canadá permite evitar muitos desses ataques a instituições que garantem responsabilização. “Ter o Citizen Lab sediado em Toronto e capaz de continuar fazendo seu trabalho em grande medida livre das coisas que estamos vendo nos EUA pode acabar sendo tremendamente importante se quisermos voltar a um lugar de Estado de Direito e proteção de direitos humanos e liberdades.”

Último vídeo

Nossos tópicos