Nesta semana, quero falar sobre um procedimento cirúrgico experimental que está ajudando pessoas a terem bebês. Especificamente, ele está ajudando quem passou por tratamento contra o câncer de cólon ou de reto.
Radioterapia e quimioterapia podem ter efeitos colaterais bastante prejudiciais, que comprometem o útero e os ovários. Cirurgiões estão desenvolvendo uma possível solução: costurar esses órgãos “para fora do caminho” durante o tratamento do câncer. Quando o tratamento termina, eles podem recolocar o útero, junto com os ovários e as trompas de Falópio, no lugar.
Parece que funciona. Na semana passada, uma equipe na Suíça divulgou a notícia de que um menino havia nascido depois que sua mãe passou pelo procedimento. O bebê, Lucien, foi o quinto a nascer após a cirurgia e o primeiro na Europa, diz Daniela Huber, a ginecologista-oncologista que realizou a operação. Desde o nascimento de Lucien, ao menos outros três bebês nasceram, acrescenta Reitan Ribeiro, o cirurgião pioneiro do procedimento. Eles me contaram os detalhes.
A paciente de Huber tinha 28 anos quando um tumor de quatro centímetros foi descoberto em seu reto. Médicos do Hospital de Sion, na Suíça, onde Huber trabalha, recomendaram um curso de tratamento que incluía múltiplos medicamentos e radioterapia, o uso de feixes de energia para encolher um tumor, antes da cirurgia para removê-lo.
Esse tipo de radiação pode matar células tumorais, mas também pode danificar outros órgãos na pelve, diz Huber. Isso inclui os ovários e o útero. Pessoas que passam por esses tratamentos podem optar por congelar seus óvulos antes, mas o dano causado ao útero pode significar que elas nunca conseguirão levar uma gestação adiante, acrescenta Huber. Danos ao revestimento do útero podem dificultar a implantação de um óvulo fertilizado, e os músculos uterinos podem ficar incapazes de se expandir, diz ela.
Nesse caso, a mulher decidiu congelar seus óvulos. Mas seria difícil usá-los mais adiante, já que a barriga de aluguel é ilegal na Suíça.
Huber lhe ofereceu uma alternativa.
Ela vinha acompanhando o trabalho de Ribeiro, um ginecologista-oncologista que antes atuava no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, no Brasil. Lá, Ribeiro foi pioneiro em um novo tipo de cirurgia que envolvia mover o útero, as trompas de Falópio e os ovários de sua posição na pelve e, temporariamente, acomodá-los na parte superior do abdômen, abaixo das costelas.
Ribeiro e seus colegas publicaram seu primeiro relato de caso em 2017, descrevendo uma paciente de 26 anos com um tumor retal. (Ribeiro, que hoje atua na Universidade McGill, em Montreal, diz que a mulher havia sido informada por vários médicos de que seu tratamento contra o câncer destruiria sua fertilidade e havia implorado que ele encontrasse uma forma de preservá-la.)
Huber se lembra de ver Ribeiro apresentar o caso em uma conferência, na época. Ela percebeu imediatamente que sua própria paciente era candidata à cirurgia e que, como cirurgiã com ampla experiência em histerectomias, seria capaz de realizá-la. A paciente concordou.
Os colegas de Huber no hospital ficaram nervosos, conta ela. Eles nunca tinham ouvido falar do procedimento. “Quando apresentei essa ideia ao cirurgião geral, ele não dormiu por três dias”, ela me diz. Depois de assistir a vídeos da equipe de Ribeiro, no entanto, ele se convenceu de que era viável.
Assim, antes de iniciar o tratamento contra o câncer, Huber e seus colegas realizaram a operação. A equipe literalmente costurou os órgãos à parede abdominal. “É uma dissecção delicada”, diz Huber, mas acrescenta que “não é o procedimento mais difícil”. A cirurgia levou de duas a três horas, afirma. Os pontos foram removidos por meio de pequenas incisões cerca de uma semana depois. Nesse intervalo, tecido cicatricial se formou, criando uma fixação duradoura.
A mulher teve duas semanas para se recuperar da cirurgia antes de começar o tratamento contra o câncer. Isso também foi um sucesso. Em poucos meses, seu tumor havia encolhido tanto que não podia ser visto em exames.
Como precaução, a equipe médica removeu cirurgicamente a área afetada do cólon. Ao mesmo tempo, cortou o tecido cicatricial que mantinha o útero, as trompas e os ovários na nova posição e transferiu os órgãos de volta para a pelve.
Cerca de oito meses depois, a mulher parou de usar anticoncepcional. Ela engravidou sem fertilização in vitro e teve uma gestação, em grande parte, saudável, diz Huber. Por volta do sétimo mês, surgiram sinais de que o feto não estava crescendo como esperado. Isso pode ter sido decorrente de problemas no suprimento de sangue para a placenta, diz Huber. Ainda assim, o bebê nasceu saudável, afirma ela.
Ribeiro diz que realizou a cirurgia 16 vezes e que equipes em países como os EUA, Peru, Israel, Índia e Rússia também a fizeram. Nem todos os casos foram publicados, mas ele acredita que o total possa chegar a cerca de 40.
Desde que o bebê Lucien nasceu, no ano passado, um sexto nascimento foi anunciado em Israel, diz Huber. Ribeiro afirma que também soube de outros dois nascimentos desde então. O mais recente foi o da primeira mulher que passou pelo procedimento. Ela teve uma menina há alguns meses, ele me conta.
Nenhuma cirurgia é isenta de riscos, e Huber ressalta que há a chance de os órgãos serem danificados durante o procedimento, ou de um câncer mais avançado se espalhar. O útero de uma das pacientes de Ribeiro não voltou a funcionar após a cirurgia. Médicos ainda estão na fase de coletar dados para desenvolver um procedimento padronizado, diz Huber, mas ela espera que a cirurgia ofereça mais opções a pessoas jovens com alguns tipos de câncer pélvico. “Espero que mais mulheres jovens possam se beneficiar desse procedimento”, diz ela.
Ribeiro afirma que a experiência o ensinou a não aceitar o status quo. “Todo mundo estava dizendo que não havia nada a fazer em relação à perda de fertilidade nesses casos”, ele me conta. “Precisamos continuar evoluindo e buscando respostas diferentes.”


