Cientistas ainda buscam respostas para compreender a variante Ômicron
Health Innovation por Einstein

Cientistas ainda buscam respostas para compreender a variante Ômicron

O sequenciamento genético deu um alerta antecipado sobre a última variante da Covid-19. Mas só saberemos se a Ômicron é um problema observando-a se espalhar.

A descoberta da variante Ômicron da Covid-19 na África do Sul mostra como o sequenciamento genético de um vírus pode dar um alerta antecipado sobre mudanças aparentemente perigosas em seu genoma.

A Ômicron tem mais de 30 mutações no importante gene “spike”, algumas das quais já foram observadas em outras variantes e acredita-se que tornem a transmissão viral mais rápida. Outras são alarmantes porque os pesquisadores não têm ideia do que significam. A preocupação é que a Ômicron possa conter um conjunto ideal de adaptações desagradáveis. É por isso que vários países levantaram barreiras de viagens no início do mês para impedir que os aviões trouxessem passageiros da África.

Apesar dessas medidas, levará algum tempo até que os pesquisadores possam dizer se a Ômicron é um problema genuíno. “Uma coisa muito importante que devemos ter em mente agora é que, para a maioria das coisas que estamos tentando descobrir, ainda não temos muitos dados”, disse Emma Hodcroft, epidemiologista molecular de Berna (Suíça) que auxilia no gerenciamento do banco de dados de informações genéticas, o Nextstrain.

Reunimos o que os cientistas querem saber e quando eles terão as respostas. Dada a maneira como as coisas aconteceram com as variantes anteriores, como Alfa e Delta, esperamos que leve cerca de um mês para a Ômicron revelar suas propriedades.

As perspectivas de pesquisa para este artigo vêm de uma discussão no Twitter Spaces, que aconteceu no dia 30 de novembro, com especialistas da Universidade de Berna, na Suíça.

As vacinas ainda funcionarão?

A preocupação: o CEO da Moderna, Stéphane Bancel, abalou a bolsa de valores quando disse ao Financial Times que as vacinas seriam prejudicadas com a nova variante. Ele antecipa uma “queda substancial” em sua eficácia, acrescentando o que os cientistas estavam lhe dizendo: “Isso não é bom”.

O experimento: para realmente descobrir como as vacinas atuais funcionarão, pesquisadores em todo o mundo já estão tentando isolar a Ômicron dos corpos de viajantes infectados. Eles vão cultivar o vírus em células de laboratório e, em seguida, expô-lo ao plasma sanguíneo de pessoas vacinadas. Eles podem então medir o quão bem os anticorpos dessa pessoa bloqueiam o vírus. Outros laboratórios usarão informações genéticas sobre a Ômicron para criar “pseudovírus” que abrigam apenas o gene spike da variante, para realizar testes semelhantes.

Em quanto tempo: esses tipos de testes geralmente levam algumas semanas para serem realizados. Para variantes anteriores, como Alfa, empresas como Moderna e BioNTech publicaram respostas de seus testes de laboratório dentro de um mês.

O que vem a seguir: se a Ômicron não reagir às vacinas, isso pode significar que empresas como a Moderna e a BioNTech precisarão reprojetar seus produtos de RNA mensageiro pela primeira vez para refletir a composição genética alterada da nova variante. Isso pode ser uma ocorrência comum com o passar dos anos. No futuro, você provavelmente receberá uma injeção de reforço anual antes do início do inverno, assim como aconteceu com a gripe.

A Ômicron está sendo transmitida com mais facilidade?

A preocupação: a nova variante se espalhou amplamente na província de Gauteng, na África do Sul, onde fica Joanesburgo, e já apareceu em mais de 20 países. Os pesquisadores se perguntam se ela é capaz de se transmitir mais rápido ou se está tendo sucesso porque esquiva-se da imunidade pré-existente, seja de vacinas ou de infecção anterior.

O experimento: é difícil verificar a propagação em um laboratório, então este experimento ocorre no mundo real. Os pesquisadores usarão os testes de sequenciamento para rastrear quanto dos casos reais de Covid-19 detectados são devidos a Ômicron. Se essa porcentagem começar a crescer, e se houver crescimento semelhante em diferentes países, será um sinal de que a Ômicron é transmitida mais rápido.

Foi o que aconteceu com a variante Alfa, que apareceu no Reino Unido em 2020. Em dezembro daquele ano, a variante respondia por uma proporção crescente dos casos de infectados britânicos e, em poucos meses, passou a dominar também os casos no resto da Europa e nos Estados Unidos. Mais tarde, a Alfa foi substituída pela variante Delta. Com essas duas cepas, Alfa e Delta, demorou cerca de quatro meses desde seu aparecimento para se tornarem responsáveis ​​pela maioria dos casos. Se a Ômicron seguir o exemplo, será a variante dominante no início de 2022.

“Quando vemos um substituto, é altamente sugestivo que há uma maior vantagem de propagação”, diz Thiel. “Mas se acontecer apenas em um lugar, pode ser devido ao acaso”. Ele diz que a ascensão da Ômicron na África do Sul, por si só, não prova se a variante é mais transmissível.

Em quanto tempo: evidências concretas de maior transmissibilidade podem levar um mês ou mais para aparecerem. Isso ocorre porque uma pessoa recém-infectada leva de cinco a seis dias para desenvolver carga viral suficiente para transmiti-la a outras pessoas. Para concluir se a Ômicron se espalha mais rápido, os pesquisadores precisarão examinar várias rodadas de contágio e disseminação.

Essa pesquisa pode ser acelerada se os pesquisadores estenderem a linha do tempo para trás sequenciando algumas amostras antigas. Médicos na Nigéria já disseram que encontraram Ômicron em uma amostra da Covid-19 armazenada no país. As autoridades holandesas também encontraram casos de Ômicron em seu território em meados de novembro. Isso pode oferecer pontos de dados adicionais.

O que vem a seguir: não é apenas o vírus SARS-CoV-2 que está mudando o mesmo aconteceu com o cenário em que a pandemia se desenrolou. Ômicron enfrentará condições mais diversas do que qualquer variante anterior, incluindo países onde quase todos são vacinados, outros que usam vacinas diferentes, lugares onde a maioria das pessoas já teve Covid-19 e nações com “zero Covid-19” como China e Nova Zelândia. Isso significa que a Ômicron pode se estabelecer em algumas áreas, mas desaparecer em outras.

A Ômicron causa doenças mais graves?

A preocupação: inicialmente, alguns médicos sul-africanos disseram que os sintomas causados ​​pela nova variante pareciam mais brandos, mas depois veio a notícia de que mais leitos hospitalares estavam sendo ocupados. No momento, ninguém sabe se a Ômicron causa sintomas piores ou não.

O problema é que a Ômicron é tão novo que a maioria dos casos tem apenas uma ou duas semanas, embora muitas vezes demore várias semanas para que a Covid-19 cause problemas graves ou a morte. “É muito cedo para dizer algo sobre a gravidade da doença. Até agora, não podemos realmente dizer nada”, disse Christian Althaus, um epidemiologista em Berna.

O experimento: para medir a gravidade da doença, os pesquisadores podem expor animais de laboratório como camundongos ou macacos a Ômicron, mas as respostas finais virão de dados do mundo real sobre as pessoas, incluindo observações médicas, registros hospitalares e contagens de mortes.

Em quanto tempo: se a Ômicron causa doenças piores ou sintomas diferentes, é provavelmente a pergunta que levará mais tempo para responder, provavelmente alguns meses.

Com toda a incerteza em torno da Ômicron e a possibilidade de que as vacinas não funcionem tão bem, os pesquisadores estão lembrando o público sobre táticas que dizem impedir a disseminação de qualquer variante, como isolamento, distanciamento social e uso de máscaras. “Não há variante contra a qual essas medidas não funcionem”, diz Thiel.

Ele também diz que a Ômicron é um sinal do que está por vir. “Nos próximos meses ou anos, será difícil. Haverá novas variantes; devemos esperar isso”, diz ele. “Mas os mercados de ações não devem responder a todas as variantes de forma assustada. Esse é o futuro e teremos que lidar com ele”.

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