Houve um surto de sarampo em fevereiro, perto de onde eu moro. Desde o início deste ano, 34 casos foram confirmados em Enfield, um distrito do norte de Londres, na Inglaterra. A maioria dos afetados é de crianças com menos de 11 anos. Um em cada cinco precisou de tratamento hospitalar.
É mais um desenvolvimento preocupante para uma doença incrivelmente contagiosa e potencialmente fatal. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), escritório regional da Organização Mundial da Saúde, emitiu um alerta no mês passado sobre o aumento de quase 32 vezes no número de casos de sarampo nas Américas, de 2024 para 2025.
No ano passado, o continente identificou 14.891 registros da doença; um salto em relação aos 446 casos do ano anterior. Foram 29 mortes em 2025. Em janeiro deste ano, dados parciais da Opas apontam 1.031 casos, número quase 45 vezes superior aos 23 do mesmo período de 2025. Não há confirmação de morte.
Desde outubro do ano passado, 962 casos de sarampo foram confirmados só na Carolina do Sul, nos Estados Unidos. Surtos grandes, com mais de 50 casos confirmados, estão em andamento em quatro estados dos Estados Unidos. Outros menores estão sendo relatados em outras doze unidades federativas de lá.
A grande maioria dos casos tem sido de crianças que não estavam totalmente imunizadas. O Brasil, por exemplo, somou 38 notificações em 2025, sendo 36 sem histórico de vacinação. Em 2024, foram quatro registros. Em 2026, não há caso reconhecido. Apesar do aumento de 2024 para 2025, o país ainda tem o status de país livre do sarampo.
A hesitação vacinal (atraso ou recusa em receber vacinas recomendadas) é considerada um motivo significativo pelo qual os pequenos estão deixando de receber proteção. A Organização Mundial da Saúde (OMS) a descreveu como uma das dez principais ameaças à saúde global em 2019. Se estamos vendo mais casos de sarampo agora, podemos esperar ver, em breve, mais casos de outras infecções preveníveis por vacina, incluindo algumas que podem causar câncer de fígado ou meningite.
Algumas pessoas sempre argumentarão que o sarampo não é grande coisa, que as infecções costumavam ser comuns, e a maioria das pessoas sobrevivia a elas e ficava bem. É verdade que, na maioria dos casos, as crianças se recuperam bem do vírus. Mas nem sempre.
Os sintomas do sarampo tendem a começar com febre e coriza. A erupção cutânea característica aparece mais tarde. Em alguns casos, desenvolvem-se complicações graves. Elas podem incluir pneumonia, cegueira e inflamação do cérebro. Algumas pessoas não desenvolverão complicações anos depois. Em casos raros, a doença pode ser fatal.
Antes de a vacina contra o sarampo ser introduzida, em 1963, epidemias dela ocorriam a cada dois ou três anos, segundo a OMS. Naquela época, cerca de 2,6 milhões de pessoas morriam da doença todos os anos. Desde que foi introduzida, acredita-se que a vacina contra o sarampo tenha evitado quase 59 milhões de mortes.
Mas as taxas de vacinação têm ficado para trás, diz Anne Zink, médica de medicina de emergência e pesquisadora clínica na Escola de Saúde Pública de Yale, na Inglaterra. “Temos visto um declínio lento no número de pessoas dispostas a se vacinar contra o sarampo há algum tempo”, diz ela. “À medida que temos cada vez mais pessoas em risco porque não estão vacinadas, maiores são as chances de a doença então se espalhar e se alastrar.”
As taxas de vacinação precisam estar em 95% para prevenir surtos de sarampo. Mas estão bem abaixo desse nível em algumas regiões. Em toda a Carolina do Sul, nos Estados Unidos, a proporção de crianças do jardim de infância que receberam as duas doses da vacina tríplice viral, que protege contra o sarampo, bem como contra a caxumba e a rubéola, caiu de forma constante nos últimos cinco anos: de 94%, entre 2020 e 2021, para 91%, de 2024 a 2025. Algumas escolas no estado têm taxas de cobertura tão baixas quanto 20%, disse a epidemiologista Linda Bell a repórteres, em janeiro.
As taxas de vacinação também são baixas em Londres. Menos de 70% das crianças receberam as duas doses da tríplice viral até os cinco anos, segundo a Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido. Em alguns distritos, as taxas são tão baixas quanto 58%. Portanto, talvez não seja surpreendente estarmos vendo surtos.
O Reino Unido é um dos seis países que perderam seu status de eliminação do sarampo no mês passado, junto com Espanha, Áustria, Armênia, Azerbaijão e Uzbequistão. O Canadá perdeu seu status de eliminação no ano passado.
O sarampo, altamente contagioso, pode ser um prenúncio de outras doenças preveníveis por vacina. Zink já está vendo sinais. Ela aponta para um caso de poliomielite que paralisou um homem em Nova York, em 2022. Isso aconteceu quando as taxas de vacinação contra a doença estavam baixas, diz ela. “A poliomielite é um ótimo exemplo de uma doença que é, na maior parte das vezes, assintomática. A maioria das pessoas não tem sintoma algum. Mas, para as pessoas que têm sintomas, pode representar risco de vida.”
Depois, há a caxumba, outra doença contra a qual a tríplice viral protege. É mais uma dessas infecções que podem ser sem sintomas e inofensivas em alguns, especialmente em crianças, mas desagradáveis para outros. Pode causar um inchaço doloroso nos testículos, e outras complicações incluem inchaço do cérebro e surdez. (Pela minha experiência pessoal de ter sido hospitalizada com caxumba, posso atestar que até infecções “leves” são bem horríveis.)
A caxumba é menos contagiosa do que o sarampo, então podemos esperar um atraso entre um aumento nos casos de sarampo e a disseminação da caxumba, diz Zink. Mas a especialista diz que está mais preocupada com a hepatite B.
“Ela permanece em superfícies por um longo período de tempo e, se você não estiver vacinado contra ela e for exposto quando criança, você corre um risco muito alto de desenvolver câncer de fígado e morrer”, diz.
Zink foi anteriormente diretora médica do Alasca, um estado que, na década de 1970, tinha a maior taxa do mundo de câncer de fígado infantil causado pela hepatite B. Programas de triagem e de vacinação universal de recém-nascidos eliminaram a disseminação do vírus.
Especialistas em saúde pública temem que a posição do atual governo estadunidense sobre vacinas possa contribuir para o declínio na adesão à vacinação. No mês passado, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention) aprovaram mudanças nas recomendações de vacinação infantil. A agência não recomenda mais a vacina contra a hepatite B para todos os recém-nascidos. O presidente do painel consultivo de vacinas do órgão também questionou recomendações amplas de vacinação contra a poliomielite.
Até injeções de vitaminas estão sendo recusadas por pais, diz Zink. Uma dose de vitamina K ao nascer pode ajudar a prevenir sangramento grave em alguns bebês. Mas pesquisas recentes sugerem que os pais de 5% dos recém-nascidos estão recusando-a (acima de 2,9% em 2017).
“Não posso dizer quantos dos meus amigos pediatras [médicos] me contaram sobre terem de cuidar de uma criança, na UTI, com sangramento no cérebro porque não havia recebido a vitamina K ao nascer”, diz Zink. “E isso pode matar crianças, [ou causar] sintomas devastadores, semelhantes aos de um AVC, para o resto da vida.”
Tudo isso pinta um quadro bastante sombrio para a saúde infantil. Mas as coisas podem mudar. A vacinação ainda pode oferecer proteção para muitas pessoas em risco de infecção. O Departamento de Saúde Pública da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, está oferecendo vacinações gratuitas de tríplice viral a residentes em clínicas móveis.
“É fácil pensar: ‘Não vai ser comigo’”, diz Zink. “Ver crianças que não têm autonomia para tomar decisões [sobre vacinação] ficando tão doentes por doenças preveníveis por vacina, para mim, é uma das coisas mais desafiadoras da prática da medicina.”
*Este texto foi editado para melhor compreensão sobre o assunto.



