Investir em um programa para explorar o espaço pode parecer uma megalomania de grandes potências com impacto distante, literalmente, da nossa realidade. Mas o que a Missão Artemis II aponta é um acirramento na corrida espacial, protagonizada agora por Estados Unidos e China, que pode levar a avanços na transição energética, na exploração de minerais raros e ser um combustível para despertar interesse das novas gerações pela exploração do universo.
Irmã gêmea de Apollo, Artemis é filha do deus grego Zeus e é conhecida por sua conexão com a natureza e a caça. Ela é ligada a lua enquanto ele é ligado ao sol. O programa recente da NASA, agência espacial dos Estados Unidos, retoma a exploração iniciada com o Programa Apollo, que funcionou entre 1961 e 1972, levando o ser humano a pousar na lua em sua décima primeira missão, em 1969.
Já a primeira missão do programa Artemis aconteceu em 2022, com o primeiro voo do foguete Space Launch System e o segundo voo planejado da nave espacial Orion, não tripulada. Com a Artemis II, acontece o primeiro voo com astronautas. Reid Wiseman (comandante), Victor Glover (piloto), Christina Koch e Jeremy Hansen (especialistas de missão) formam o quarteto, que conta pela primeira vez com uma mulher e um homem negro. Em 2028, está prevista a Artemis IV, com o pouso da tripulação no satélite. Desta forma, a Artemis II equivaleria a Apollo VIII e a Artemis IV equivalerá a Apollo XI.
Além de inspirar muitos filmes no futuro, esta missão dá um novo passo em direção a objetivos que podem redefinir a geopolítica. Isto porque o objetivo é estabelecer uma infraestrutura, criando uma base na Lua que pode servir a futuras missões a Marte. Segundo um relatório da NASA de 2020, a meta é que a Artemis III observe, por exemplo, a água congelada, perfurando seu solo, e a gravidade, que é bem menor que a da Terra, o que facilita o lançamento de foguetes. Especialistas também destacam a reserva de helio-3, isótopo que pode mudar profundamente a produção de energia.
“Com o helio-3 a fissão nuclear é viável e, se isso virar a chavinha, nós temos energia barata e infinita. Podemos dizer que você vai morar em um novo planeta. Você desliga todas as petroleiras do mundo instantaneamente”, explica Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, afirmando que isso pode acontecer entre duas a três décadas, e é um dos motivos dos investimentos de China e Estados Unidos na atual corrida espacial. A vantagem do material é que ele tem grande potencial na geração de energia nuclear segura e limpa, contribuindo para a transição energética o que abandonaria a dependência dos combustíveis fósseis, cujas emissões causam a crise climática.
Além disso, o satélite tem minerais de terras raras e dezenas de ligas metálicas que não estão disponíveis no nosso planeta, que também podem modificar a indústria terrestre. “É como inventar a roda, ter a charrete, criar o carro, depois ter o carro elétrico”, explica o pesquisador ao imaginar novos saltos tecnológicos com os recursos.
A ideia de entrar na disputa espacial é realmente distante do Brasil se pensada de forma a competir com Estados Unidos e China. Porém, o país é conhecido pela sua vantagem geográfica para o lançamento de foguetes através do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. A proximidade da linha do Equador permite aproveitar a rotação da Terra e economizar combustível. Além disso, a tecnologia de monitoramento de satélites e até o potencial de pesquisa de alimentos para uma futura produção a nível espacial são vantagens em potencial.
Artemis reaproxima sociedade da ciência e do espaço
“A gente precisava retomar voos mais altos, literalmente”, afirma Alexandre Cherman, diretor de astronomia do planetário do Rio de Janeiro. A Estação Espacial Internacional (ISS), por exemplo, tripulada desde 2000, está a 400 quilômetros de nós, quase a mesma distância entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Da Terra para a Lua, são quase 400 mil quilômetros. Voltar ao satélite reacende uma curiosidade que estava adormecida por ser uma missão muito mais complicada do que vinha acontecendo com a estação.
Cherman relembra o cientista Carl Sagan que dizia que vivemos em uma sociedade tecnológica, mas onde as pessoas não sabem como funciona a tecnologia. Há uma geração inteira que não viu a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, e nasceu plugada nas redes sociais, sem saber a importância das conquistas espaciais. “A Internet precisa de física quântica, eletrônica, astronáutica para funcionar. Olha quanta coisa a gente teve que conquistar para você ter a vida que tem hoje”, reflete.
Programas de ciência cidadã, onde pessoas comuns colaboram com pesquisas, podem ajudar a manter essa curiosidade despertada em missões como a Artemis. O projeto Galaxy Zoo, que tem parceria com a NASA e a União Internacional Astronômica, permite que voluntários ajudem a classificar galáxias. O Search for Extraterrestrial Intelligence (SETI) permite que você ajude a identificar algo que não seja ruído e possa ser indício de vida extraterrestre.
No Brasil, há cerca de dez anos existe o Caça Asteroides, programa dentro do Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação. Até 2025, mais de dez mil asteroides foram detectados, segundo a diretora Silvana Copceski. Ela conta que se mobilizou a partir do interesse de uma de suas alunas pelo espaço, em meados de 2015, que a levou a conhecer o professor Patrick Miller, coordenador mundial da International Astronomical Search Collaboration, uma organização parceira da NASA que promove a busca por asteroides por cidadãos cientistas.
O que começou em uma escola, em Mato Grosso, foi se espalhando, principalmente a partir da pandemia. Na primeira campanha através do ministério, foram 400 inscritos. Atualmente, são até oito campanhas anuais, com treinamentos em cada uma delas. Para participar, é preciso inscrever uma equipe com, no mínimo, três participantes, em que um deles tenha pelo menos 18 anos. Existem grupos de WhatsApp que reúnem novatos e veteranos e há caçadores que participam de todas as campanhas, todos os anos.
“Há muitos e muitos anos atrás, somente astrônomos profissionais podiam participar, fazer uma caçada. Hoje, nós conseguimos mostrar que até uma criança sendo orientada por um adulto consegue fazer a detecção de asteróides”, celebra a coordenadora.
O processo, realmente, não é complexo. Basta instalar no computador o programa Astrometrica, para analisar os pacotes de imagens do céu, buscar objetos em movimento e enviar relatórios de possíveis descobertas. É preciso identificar se ele dá uma espécie de pulo entre a sequência de imagens. Os asteroides são fragmentos que sobraram da formação inicial do sistema solar há cerca de 4,6 bilhões de anos.
Em vez de caçar Pokémons, com apenas 13 anos, Nicole Semião, ou Nicolinha, é uma grande treinadora de caçadores de asteroides. Com mais de 70 certificações, ela se interessou pelo espaço com apenas dois anos, mas entende como gente grande. Depois da escola, dividindo o tempo como influenciadora de ciência, ela dedica cerca de duas horas por dia com o projeto. Já são 92 asteroides que ela descobriu que estão sob análise. No começo, sua equipe eram os pais, mas atualmente os amigos da escola e duas mil crianças do seu clube online formam equipes coordenadas por ela.
Para ela, a missão da Artemis é especial por ser uma inspiração. “O que mais chamou a minha atenção foi o fato de que nessa missão tem uma mulher, ou seja, é a primeira mulher que tá orbitando a Lua. Isso eu achei fantástico. E dá para a gente chamar atenção dos asteróides, eles estão sempre impactando na Lua, gerando aquelas crateras que a gente consegue ver”, comenta a pequena astrônoma, já reconhecida na área e que foi homenageada ano passado ao ter um asteroide batizado com seu nome, o 2006 SU218.
Histórias como a da Artemis e de programas como o Caça Asteroides também podem provocar uma mudança na carreira. Com formação em filosofia e pedagogia, Márcia Saori Câmara Kishi, está se graduando em Análise de Desenvolvimento de Sistemas para continuar em uma carreira acadêmica voltada para a análise de dados espaciais. Para ela, que é do interior do Pará, uma visita ao planetário de Belém despertou a paixão pela astronomia e ela não parou mais. Com o Caça Asteroides, ela já detectou mais de 500 deles, com a ajuda de familiares da sua equipe, e um deles foi numerado em 2025, como se tivesse recebido um CPF, primeiro passo para ser nomeado.
Para Kishi, a Artemis é mais um chamado para não desistir. “Acredito que tem várias pessoas, principalmente meninas, mulheres, que têm esse interesse de entrar na astronomia, porém desistem pelo preconceito, mas acredito que ninguém deve desistir.”



