A Ethereum é o novo VHS?
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A Ethereum é o novo VHS?

A disputa entre tecnologia e estratégia de mercado chega ao ecossistema blockchain

Muita gente conhece, viveu ou estudou o case da VHS. É uma história muito utilizada para mostrar como nem sempre a melhor tecnologia é que ganha o mercado. Ao contrário, na maioria dos casos a estratégia de mercado é que vence. Bem, para quem não conhece vou relembrar rapidamente.

Betamax vs VHS

Tudo começou na década de 70, na corrida pelo videocassete, aquele aparelho de fita que permitia às pessoas ver e gravar vídeo em casa. A Sony entrou no mercado com um formato de mais qualidade, o Betamax; e a JVC entrou com outro formatoinferior, o VHS.

A Sony estava confiante e tinha motivo! O Betamax era melhor e o mercado potencial era gigantesco. Logo ela investiu todas as fichas nisso. Por mais de dez anos só a Sony tinha direito de fabricar o Betamax, enquanto o VHS era um consórcio enorme e liberava parcerias facilmente. O VHS ganhou um ecossistema insuperável e o mercado era só para um. Ou você tinha Betamax ou VHS em casa.

No início dos anos 80 a Sony tinha apenas 25% do mercado, lutando contra todas as outras, incluindo a Panasonic. No fim da década, a Sony admite sua derrota e lança um aparelho de VHS. O último player de fitas Betamax sai em 2002, e as fitas só param de ser fabricadas em 2016. Apesar de qualidade superior, a tecnologia ficou para trás.

Microcomputadores

Na década de 80 também surgia o mercado de microcomputadores, computador pessoal ou PC. A briga ficou famosa entre o PC da Microsoft e o Apple Computer, da Apple. Enquanto a Microsoft apostou apenas no sistema operacional DOS fazendo parceria com todos os fabricantes de computador, a Apple verticaliza até hoje seu mercado, num modelo parecido com a estratégia da Betamax, produtos mais bem integrados e de maior qualidade. Por mais que a Apple seja a maior empresa do mundo em valor de mercado, a Microsoft segue dominando o mercado de computadores, com presença em mais de 90% deles.

Essa disputa mostra novamente a força de um grande ecossistema no mercado. A Apple depende principalmente do seu iPhone, enquanto a Microsoft dificilmente vai perder sua dominância em sistema operacional, embora a derrota no mercado mobile seja preocupante para o seu futuro. A Microsoft já tentou lançar seu Windows Phone, sem sucesso. Sua sorte é que o mercado também não é do iPhone, a maior parte é Android: meio Google, meio de ninguém.

Internet e start-ups

Com o crescimento da Internet em 2000, os ecossistemas começaram a ser criados mais rapidamente. O investimento em marketing que a Sony ou a JVC tinha que fazer para divulgar seu produto pelo mundo caiu enormemente com a comunicação digital.

O novo movimento se chamava de startups. Novamente vemos a disputa entre tecnologia e estratégia de mercado. Dessa vez vimos um navegador Google Chrome superando a distribuição da Microsoft por causa de sua tecnologia melhor. A tecnologia começava a ganhar mais peso. No entanto, com o domínio da Internet pelo Google, não conseguimos ver um novo buscador com melhor tecnologia superá-lo — e, acredite, já existe. Mais do que uma boa tecnologia, ainda é mais importante ter uma boa distribuição na Internet.

Rede Ethereum

Pois então chegamos na rede Ethereum, a primeira blockchain de smart contracts, a maior rede de processadores do mundo, um ecossistema super capilarizado. Só tem um problema: ela não escala, suas transações são lentas e cada vez mais caras. Novas soluções já se apresentam no mercado: Cardano, Binance Smart Chain, Solana, Avalanche etc. Quase todas tecnicamente melhores.

Ainda não completamos uma década, pelo contrário, este mercado anda mais rápido do que todos os outros. Novos times encostam bem rápido no primeiro colocado, mas ninguém ainda conseguiu ultrapassar. Mas fica a pergunta: será que estamos chegando em um novo momento, onde o usuário vai poder realmente escolher a melhor tecnologia, ou o ecossistema ainda será uma barreira intransponível? Se for, quanto tempo será que a Ethereum tem para manter a liderança? Estes são os questionamentos que estarão na cabeça dos novos gerentes de negócios de tecnologia.


Este artigo foi produzido por Christian Aranha, Empreendedor e pesquisador na área de Inteligência Artificial, Big Data e Blockchain, autor do livro Bitcoin, Blockchain e Muito Dinheiro e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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